sexta-feira, 20 de setembro de 2024

QUEM LEMBROU DOS LANCEIROS NEGROS?

 E os Lanceiros Negros foram lembrandos e homenageados ou ainda continuam na porta das senzalas limpando os escrotos dos brancos e trabalhando de graça?  

Não podemos esquecer aquele tempo em que a escravidão reinava nesse estado e das mentiras pregadas aos negros com promessas de liberdade, coisa que nunca chegou. 

Parece que Caxias do Sul, lembrou e homenageou os Lanceiros Negros, mas se tu não conhece a história desses bravos combatentes, deixo um vasto material para estudo e conhecimento.





Os Lanceiros Negros da Revolução Farroupilha

O maior conflito armado ocorrido em território brasileiro teve participação fundamental de um grupo de pessoas que, na época, jamais imaginariam que seriam tão importantes no conflito, tanto no desenrolar quanto na conclusão.
Os lanceiros negros, grupamento do exército farroupilha formado por escravos convocados para lutar ao lado dos revoltosos, desempenhou um importante papel durante os 10 anos da Revolução Farroupilha.

Escravos libertos (ou nem tanto) para lutar pelo Rio Grande!
A Revolução Farroupilha teve início principalmente pela revolta dos estancieiros gaúchos, descontentes com a política implantada pelo Império Brasileiro, que desfavorecia a produção e comercialização do charque e do couro gaúchos, enquanto favorecia a produção de nossos hermanos, pois o Império preferia comprar este produto na região do Prata.
Vários destes estancieiros usavam mão-de-obra escrava em suas fazendas. Ao aderir a revolta, o estancieiro convocava seus escravos para lutar ao seu lado, engrossando as fileiras farroupilhas contra as tropas imperiais. Como motivação para lutar, o escravos recebiam a promessa de que estariam livres após o conflito, com a definitiva implantação da República Rio Grandense.

Além disso, quando uma estância de uma pessoa favorável ao Império era invadida, os escravos que trabalhavam nesta estância eram “libertados” pelos republicanos e convocados para o exército farroupilha.

Em pouco tempo, o 1° Corpo dos Lanceiros da primeira linha, criado em 1836, contava com mais de 400 homens a serviço da Revolução. Já em 1838 foi criado o 2° Corpo de Lanceiros, desta vez com exatos 426 homens. A maioria era formada por ex-escravos, mas nas fileiras também contavam com mestiços e índios.

E não eram soldados comuns, por nunca terem feito parte de um corpo militar antes da Revolução Farroupilha. Muitos tinham grande habilidade em cima de um cavalo, pois já trabalhavam domando animais nas estâncias, enquanto outros eram exímios lutadores com as lanças e facas em punho, além de usarem muito bem a boleadeira.

Isto garantia ótima mobilidade ao batalhão e um grande poder destrutivo, o que transformava-os em uma espécie de batalhão de choque dos farroupilhas.


Cláudio Moreira Bento, em seu livro “O exército dos Farrapos e seus chefes”, refere-se aos lanceiros negros da seguinte forma:

“Excelentes combatentes de Cavalaria entregavam-se ao combate com grande denodo, por saberem como verdadeiros filhos da liberdade que esta, para si e para seus irmãos de cor e libertadores, estaria em jogo em cada combate […] Manejavam com grande habilidade suas armas prediletas — as lanças. Faziam a guerra à base de recursos locais. […] A maioria montava a cavalo quase em pêlo. […] Eram armados também com adaga ou facão e, em certos casos, algumas armas de fogo […] Os seus grosseiros ponchos de lã — bicharás — , serviam-lhes de cama, cobertor e proteção ao frio e à chuva. Quando em combate a cavalo, enrolado no braço esquerdo, o poncho servia-lhes para amortecer ou desviar um lançaço ou um golpe de espada.[…] Eram habilíssimos no uso das boleadeiras como arma de guerra […]” [1]

As dúvidas quanto à libertação e os direitos dos negros no RS

Uma questão controversa e que chamou minha atenção quando eu pesquisava sobre o assunto foi justamente a liberdade prometida pelos farroupilhas e o tratamento dispensado aos escravos que lutavam pela independência do Rio Grande do Sul.

Pois não há um posicionamento claro de que a liberdade era de fato certa ao fim do conflito — no caso de vitória farroupilha — ou se a escravidão seria oficialmente abolida no Rio Grande do Sul. O que sabemos é que o Império venceu, então grande parte dos escravos que sobreviveram ao Massacre na Batalha dos Porongos (calma que já chegamos lá) voltaram a condição de escravos com o fim do conflito.

O que temos de certo é que na época o Império chegou a decretar que os escravos que lutavam ao lado dos farroupilhas estariam sujeitos à pena que variava de duzentas até mil chibatadas, caso fossem capturados. Enquanto isso, os farroupilhas publicaram uma declaração repudiando o decreto imperial e informando que o exército republicano mataria um soldado imperial para cada negro capturado e açoitado.

Deste ato podemos ter uma ideia de como os republicanos tratariam os escravos caso a Revolução tivesse êxito. Ou não, já que existe um certo desencontro de informações quanto à um acontecimento particularmente sangrento da Revolução Farroupilha…

A Batalha de Porongos

Em novembro de 1844, as lideranças farroupilhas e imperiais já costuravam o fim da guerra, com cenário totalmente favorável ao Império, mantendo o Rio Grande do Sul como província. Mas havia um ponto em particular que estava atrasando o acordo: a libertação dos escravos que lutaram ao lado dos farroupilhas.

O Império não aceitava a libertação destes escravos, pois temia que este fato desencadeasse movimentos abolicionistas Brasil afora. E algumas lideranças farroupilhas preferiam a libertação dos escravos, colocando inclusive como uma das exigências para o fim da revolta.

O impasse teria sido resolvido na Batalha de Porongos, quando soldados do exército imperial, liderados por Francisco Abreu, o Moringue, e autorizados pelo Barão de Caxias, atacaram de surpresa os farroupilhas que estavam aguardando ordens acampados na curva do arroio Porongos, que fica no município de Pinheiro Machado.

Além dos farroupilhas normais — que faziam parte de outros destacamentos do exército farroupilha —, faziam parte do grupo cerca de 100 lanceiros negros que estavam desarmados e foram dizimados pelos imperiais. Os poucos que restaram vivos foram vendidos no Rio de Janeiro.


Quanto às controvérsias a este fato, David Canabarro — um dos líderes farroupilhas — desarmou os lanceiros e piorou a situação de defesa do grupo. E depois de Porongos o grupo dos lanceiros negros deixou de ser um atraso nas conversas diplomáticas, e em fevereiro de 1845 o acordo pondo fim às disputas foi definitivamente costurado entre as partes e o Rio Grande do Sul deixou de ser considerado uma província revoltosa.
À custa dos bravos lanceiros negros…

Fontes

– Os Lanceiros Negros na Revolução Farroupilha, texto do Historiador e deputado Raul Carrion. A citação [1] eu tirei deste texto.
– “Os Escravos que lutaram em troca de liberdade”, texto de Guilherme Justino para a UFRGS


quinta-feira, 19 de setembro de 2024

E OS FESTIVAIS?

 Bueno, continuamos sempre lidando coma letras, os versos, as melodias e as cantorias, e no dia 20 de setembro, conhecido também como amanhã, estaremos no palco do CANTO DO BARRIL em Frederico Westfalen, com a obra LIÕES DA FLORES, um letra nossa com melodia de Taine Schettert e que irá a palco na bela voz da Cantora Roberta Soares, estamos na torcida e desejamos um ótimo festival a todos.

Já nos dias 27 e 28 de setembro, também conhecida como na semana que vem, estaremos no palco do CANTO NATIVO de Santo Augusto com a música TAPERA, uma letra nossa com música de Kayke Mello e que irá a palco na bela voz da Cantona Taíne Schetter - e terá ainda o Piano do Jackson Kreus e a Gaita do Roninson Borba. Todos convidados para acompanhar mais esse grande festival. Que terá ainda o Cantinho Nativo, espaço para a crianças brilharem em mais um palco de festival. 

E, dos dias 17 a 19 de outubro, estaremos mais um ano no Palco do Canto Galponeiro, de Passo Fundo, com a obra, UMA FLORZITA COLORADA! - um rasguido doble com letra nossa e música do Paullo costa e que vai a palco nas vozes de Paullo Costa e Juliano Moreno, além de um baita time de palco.
Todos convidados para esses grandes eventos da cultura do Rio Grande do Sul e que alavancam a economia das cidades, além é claro de fomentar a cultura para os novos, visto que, também, O Piazito Galponeiro, dá espaço para as crianças mostrarem seus talentos pelos palcos dos festivais.

Vamos todos!



terça-feira, 17 de setembro de 2024

A Origem do Lenço e a sua Importância na Indumentária Gaúcha

Imagem de Guido Moundin - Tela Fogo no pasto

por Maxsoel Bastos de Freitas

Introdução
O objetivo deste artigo é reconstruir através de uma pesquisa e de uma consequente narrativa o processo de construção e patrimonialização de itens da nossa indumentária gaúcha.
Este estudo passa a ter um recorte que apresenta o objeto de pesquisa: A origem do Lenço Gaúcho, que faz parte de uma indumentária típica e cultural para o povo do sul do continente americano e sua proposta como elemento que materializa a ideia de uma identidade gaúcha.
O estudo parte de parcos recursos de pesquisas que invariavelmente acabam por repetir algumas definições que aparentemente não se lastreiam em bibliografias sólidas que possam indicar que para os conceitos usados foram utilizados métodos estruturados de investigação a cerca do tema.
Quando observamos usos e costumes que ultrapassam mais de um século, o registro do processo de construção e patrimonialização a partir do método de coleta histórica, precipuamente oral, carrega para o núcleo da pesquisa uma esfera oculta a respeito das trajetórias de construção da indumentária gaúcha, já que não há registro de estudos envolvendo o universo do acervo de indumentária que atualmente temos como identidade em nossa cultura, especificamente dos lenços.
É preciso ter cuidado porque um dos temas fundamentais para trabalhar com história que provem da oralidade, e quando pesquisamos a origem do lenço gaúcho nos deparamos com este recorte, é o das vozes ocultas, pois não há documentos sobre essas memórias, tornando-se muitas vezes campos mágicos ou obscuros para se explorar. Desta forma, é possível interpretar a história de um acervo e de uma cultura por meio da escuta aos interlocutores mais antigos e do registro da história de sua vida, onde a memória é tudo aquilo que remete ao passado no presente, dentro de um lapso de tempo e de um determinado lugar, no caso em analise, no Rio Grande do Sul.
Pensando assim, este estudo ganha relevância ao termo que nos ajuda a pensar em como artefatos como os lenços passaram a fazer parte das vestimentas e, assim, que tenham passados a ter um sentido para o mundo e para a identidade visual e psicológica dos gaúchos. Do mesmo modo que os interlocutores vivos, as indumentárias, como no caso em estudo os lenços gaúchos, também são narradores e protagonistas de uma história que se personifica e transcende o próprio tempo.

Lenço Farroupilha

Aqui, compreendemos que patrimônio cultural e de identidade é um status em que os Lenços Gaúchos tornaram-se a própria testemunha, uma fonte carregada de ideais e valores da sociedade na qual foram e são consumidos, usados e/ou constituídos.
Relaciona-se patrimônio cultural com memória e marcas de identidade de uma sociedade, na qual a memória coletiva atua como narrativa do passado e constituinte de uma identidade social inegável.
Ainda, os lenços, referidos aqui como parte da indumentária gaúcha, repita-se, são compreendidos como uma experiência condicionante das relações sociais, e não apenas um produto de estética resultante das conjunturas sociais e anseios políticos de uma época. Neste compasso, as interações sociais estão permeadas pelos objetos, onde a indumentária constitui um grupo e escancara seus ideais e vontades.
Os lenços gaúchos, dentro de um espaço patrimonial, neste trabalho, são caracterizados como um verdadeiro documento, como parte da cultura material e como um bem cultural. O formato, o tamanho, a cor, os métodos de uso, os sujeitos envolvidos na criação bem como as formas de organização e inserção das peças em locais compreendidos como patrimônios são alguns dos aspectos que constituem a trajetória desses artefatos tão importantes.

1. Origem dos Lenços
Os lenços, assim como as roupas, possuem como sua primeira função proteger o corpo. Porém, podem ser utilizados como identificação entre pessoas e seus grupos, suas origens, tribos, status social etc. A história antiga e, mesmo a contemporânea nos revela:


– Que a rainha Nefertiti foi a primeira mulher na história a usar um lenço na cabeça em 1350 a.C. O tipo de lenço que a misteriosa rainha do Egito usava era conhecido como “khat”.

– Em 1261 d.C a dança do ventre, dançada no Egito, trazia o lenço como acessório para a dança e para o figurino da dançarina, que amarrava o lenço na cintura como uma saia.

– A rainha Vitória da Inglaterra e a princesa Elena Meshcherskaya da Rússia foram duas das responsáveis por ajudar a popularizar o lenço como acessório entre o ano de 1837 e 1843.
Mais a fundo, constata-se que o lenço que deu origem as gravatas masculinas, cachecóis entre outros acessórios de vestuário tem uma história que remonta os antigos egípcios e passa pela história de croatas, franceses e chineses. A origem do lenço também passa pela antiga Roma por um pedaço de pano de linho que era chamado de sudário que significa “pano de suor” em latim.
Arqueólogos identificaram em torno do pescoço de múmias egípcias uma espécie de amuleto conhecido como Sangue de Ísis. Esse objeto em ouro ou cerâmica possuía a forma de um cordão arrematado com um nó, cuja função era proteger o corpo dos perigos da eternidade.
Os romanos utilizavam esses tecidos para limpar o suor do rosto e do pescoço, dessa forma a utilidade era mantê-los limpos e não quentes como fazemos hoje em dia. Com o passar do tempo os lenços começaram a ser utilizados em volta do pescoço e também atados aos cintos. As mulheres romanas gostaram dessa moda e logo aderiram.
Alguns historiadores acreditam que os primeiros lenços de pano eram utilizados pelos guerreiros do imperador chinês Cheng (Shih Huang Ti), em 230 a.C., contudo, existem registros de que esse tipo de lenço já era comum entre os mercenários croatas. 

Em seu livro “La grande Historie de la Cravate” (Flamarion, Paris, 1994), Francoise Chaile nos conta sobre os aspectos deste apetrecho e sua posterior difusão:

“(…) Por volta do ano de 1635, um grupo de 6 mil soldados e cavaleiros vieram a Paris manifestar seu apoio a Luis XIII e Richelieu. Entre eles havia um grande número de mercenários Croatas que, separados pelo exílio, permaneceram a serviço do rei Francês. (...)”
Nesse caso havia até mesmo uma distinção social, hierárquica, pois, os simples soldados utilizavam lenços de algodão enquanto os oficiais utilizavam o acessório de seda.
Os franceses gostaram tanto dos lenços coloridos de outros povos que passaram a utilizá-los em volta do pescoço, acessório que foi chamado de kravata que é uma palavra de etimologia croata que deu origem as gravatas. Para os franceses os lenços eram usados para mostrar a inclinação política do homem dependendo da cor escolhida.

2. A chegada dos Lenços no Brasil
Quando a família real portuguesa chegou ao Brasil, no século 19, apresentou a moda dos lenços usados na cabeça para as pessoas que aqui moravam. Porém, o que nem todo mundo sabia nessa época é que os lenços eram usados na verdade para evitar a propagação dos piolhos nas embarcações que vieram da Europa.

O problema com piolhos foi tamanho que a rainha Carlota Joaquina foi obrigada a raspar a cabeça.

As portuguesas e espanholas começaram com a moda de usar lenços bordados na cabeça e caídos sobre os ombros. Já os homens e mulheres franceses optaram por lenços menores e mais discretos amarrados no pescoço.

3. Primeiros Registros históricos do uso de Lenços no Rio Grande do Sul

Saint-Hilaire (imagem) que esteve em terras gaúchas e no estuário do Prata entre os anos de 1820 e 1821, deixou importante registro histórico quando anotou que observou gaúchos argentinos da província de Entre-Rios e na cidade de São Borja e descreveu-lhes a indumentária da seguinte forma:
"Trazem os cabelos trançados e um lenço ao redor da cabeça, um outro lenço, a que dão um nó muito solto, serve-lhes de gravata; como arma exibem uma grande faca à cinta."

Também realizando importante registro, na mesma época, o francês Nicolau Dreys , em suas anotações menciona o lenço dos gaúchos, cujo trecho merece destaque abaixo:
"...um lenço, quase sempre amarrado na cabeça,..." 

Quando aos registros nas artes plásticas, temos obras como a no Uruguai, imortalizada por Juan Manuel Blanes quando pintou o gaúcho as vacarias de golilla, com o grande lenço aberto, esvoaçando às costas. Na mesma toada, em terras brasileiras, o pintor Jean-Baptiste Debret também materializou o gaúcho que vivia nas terras do Rio Grande do Sul com um lenço de pescoço, bem no inicio do século XIX.

Diante dos registros mencionados passa a ser indissociável que o lenço gaúcho era uma peça da indumentária gauchesca brasileira ou castelhana. Por esta afirmação o caminho da pesquisa a ser realizada passa a ganhar contornos mais amplos devido a necessidade que observarmos a influência castelhana/espanhola na introdução e reconhecimento desta peça de vestuário como parte de nossa indumentária cultural. 

Segundo o escritor castelhano Fernando O. Assunção o lenço usado pelo gaucho argentino tinha vários usos. Geralmente colocado na cabeça, amarrado a ele, à moda marinheiro ou corsário ou amarrado sob o queixo, sempre sob o chapéu, ou como uma faixa para prender os cabelos compridos. No primeiro caso, serviu como chapéu ou rede, que o homem da vila, rural ou urbano, espanhol, gostava de usar para manter-se cobertos e protegidos da poeira e do sol.
Esta maneira de usá-lo de acordo com Assunção é uma herança de marinheiros e camponeses peninsulares.
Para Fernando O. Assunção outro modo de uso, também de herança camponesa com reminiscências árabes, tinha por finalidade proteger a cabeça, as bochechas e o pescoço do sol durante o dia e, para os ouvidos, do orvalho e do frio no início da manhã e do pôr do sol; também da chuva de inverno, vento e frio.
O lenço como distintivo político, já foi utilizado de um lado e do outro das margens do rio Uruguai. Na Banda Oriental, aparece o lenço vermelho dos colorados seguidores de Frutuoso Rivera e o lenço branco dos nacionalistas de Oribe. Na Argentina, os colorados de Juan Manuel Rosas combatiam ferozmente os azules e blancos da oposição provincial, anti-portenha.
Para contextualização devemos lembrar que o Gaúcho não é apenas um indivíduo natural do Estado do Rio Grande do Sul. O Gaúcho é o homem cavaleiro das Américas, que recebe na Argentina e no Uruguai o nome de Gaucho, no Brasil de Gaúcho, no Chile de Guaso, na Venezuela de Ilanero e no México de Charroe.

O Gaúcho é um homem ligado ao campo e ao gado; é um homem que se forjou para enfrentar a intempérie, o vento, o frio, a chuva e tomar conta dos animais. Ele que no inicio de sua formação era um caçador, tornou-se um verdadeiro parceiro do sistema ecológico. O Gaúcho, acostumou-se a viver no campo ao ar livre, sob o lombo do cavalo. Temperou sua formação no frio e no calor do campo aberto.
O homem Gaúcho, antes chamado de vago ou gaudério, nasceu nas fronteiras da Argentina com o Uruguai e com o extremo sul do Brasil. É um produto da miscigenação indígena com luso-brasileiros e espanhóis. Suas roupas eram e precisavam ser funcionais, reflexos de uma origem nômade.
O lenço vem acompanhando a história do gaúcho e do Rio Grande desde a sua colonização.
Com a fundação das missões pelos padres Jesuítas , foram então introduzidos os tecidos, pois até então os índios fabricavam suas roupas e outros objetos de couro de animais. Os tecidos eram utilizados para a confecção de roupas que passaram a usar conforme severa moral jesuíta, entre elas a camisa, calções europeus, o tipoy que era um vestido usado pelas índias, e o chiripa, usado pelos índios.
A colonização europeia, no sul do continente em especial do lado direito da margem do rio Uruguai, trouxe consigo roupas mais requintadas como botas, ceroulas, algumas espécies de gravatas, casacos e entre outros.
Quando observamos os parâmetros históricos podemos concluir que o lenço atado ao pescoço pode e deve ter surgido da evolução do lenço usado como gravata pelos europeus. Sua maior afirmação ocorreu quando foi adotado politicamente como designativo de cor partidária até o modo de atá-lo ao pescoço, surgindo assim o lenço gaúcho, atado ao pescoço, solto ao peito. Do seu uso, passou a ser instrumento de identificação; companheiros ou inimigos eram reconhecidos a distância pela cor dos lenços.
Neste contexto, os farrapos que lutaram contra o Império do Brasil de 1835 a 1845, usavam o lenço vermelho, atado de maneira própria como símbolo de seu grupo. Neste particular, os aspectos históricos registram que os farrapos mandaram confeccionar alguns lenços personalizados nos Estado Unidos. De acordo com  Apolinário  Porto Alegre o pedido foi feito no dia 10 de maio de 1842.
Se há ligação ou não, com a escolha dos Estados Unidos, para confeccionar os lenços, cabe frisar que a maçonaria vermelha, de origem francesa e de feição republicana, que tem a divisão dos três poderes, tinha muita força nos Estados Unidos, assim como na jovem república rio-grandense e no Prata, visto que muitos de seus lideres eram maçons.
Os primeiros lenços encomendados que chegaram pelo porto da cidade de Rio Grande, foram queimados pelas forças imperiais ainda na alfândega dentro de seus próprios caixotes. Por outro lado, alguns exemplares que vieram por terra, conseguiram chegar no acampamento volante em terras de Manuel Moura. Estes exemplares eram lenços de seda, estampados no centro com emblemas e legendas, celebrando os feitos e ficaram conhecidos como “lenços farroupilhas”, dos quais ainda existem alguns exemplares em museus e em coleções particulares.
O Lenço Farroupilha (foto acima) possui uma simbologia para o estado do Rio Grande do Sul, por conter o Brasão de Armas (Símbolo Oficial). O lenço farroupilha foi encomendado a partir de Montevidéu no Uruguai para uma confecção nos Estados Unidos por intermédio de Bernardo Pires de Oliveira, apontado como o autor dos desenhos.
Em todos os lenços farroupilhas, conhecidos, aparecem as letras S. G. C., iniciais de Salve Grande Continente, segundo Alfredo Varela. Um novo exemplar de modo posterior foi confeccionado na Europa, na França ou na Alemanha e apenas chegou ao Brasil após assinada a paz da revolução farroupilha. 

Novamente os lenços como bandeira ideológica voltam ao cenário de lutas no Rio Grande do Sul nas revoluções de 1893 e 1923, nestas contendas, enfrentaram-se os lenços brancos de republicanos ou ainda chamados de “chimangos” e os lenços vermelhos dos federalistas ou “maragatos”, até os dias de hoje, conhecidos, como os mais tradicionais.

Com o surgimento dos movimentos em prol do tradicionalismo e, com a consequente fundação do primeiro centro de tradições gaúchas, os gaúchos e tradicionalistas passaram a ostentar os lenços de tradição das suas famílias.

CONCLUSÃO

Na lida de campo, no dia-a-dia, o lenço continua a ser usado, por dentro da gola da camisa, como proteção para não suja-lá em dias de poeira, e também para limpar o suor do rosto se necessário.
A simbologia e o uso dos lenços continuam forte na cultura gaúcha.
Quando, amarramos um lenço colorado e um lenço branco, juntos, temos neste ato o símbolo da paz eterna entre os gaúchos, neste ato rogamos para que nunca mais se derrame sangue de outro irmão gaúcho.
O lenço é a herança que trazermos e cultuamos como lembrança dos nossos ancestrais.

Com base neste estudo podemos concluir que os lenços, como parte da indumentária gaúcha, tiveram sua introdução no sul do continente pela colonização europeia, trazidos tantos pelos espanhóis quanto pelos portugueses, mas tudo indica, pelo contexto histórico do processo de colonização, especialmente do Rio Grande do Sul e, também da região do Prata que a difusão do uso deste apetrecho como parte da indumentária do gaúcho chegou primeiro pelas mãos dos espanhóis e dai pelo seus usos e costumes acabou espalhou-se praticamente por toda a America.

Cabe aqui mencionar, para uma maior reflexão, que os índios americanos apaches, conforme registros históricos pesquisados, também usavam um lenço amarrado ao pescoço da mesma forma que o gaúcho ainda usa. Estes índios habitavam o norte do México e, também, tiveram um amplo contato com os espanhóis durante o processo de colonização daqueles povos no decorrer do século XVI.

Artigo de Maxsoel Bastos de Freitas

sexta-feira, 13 de setembro de 2024

CTG TROPEIRO DAS MISSÕES - VILA KRAEMER

 E está começando mais uma semana do Gaúcho na minha terra e o CTG que foi parte da minha infância já começa com grande programação, grandes eventos, almoço, jantar, rodas de chimarrão, música e um acolhimento que só as pessoas da Vila mais Forte do Brasil conseguem dar. 

De 14 a 20 de Setembro estão todos convidados a passarem pela Vila Kraemer - 5º distrito de São Francisco de Assis no CTG Tropeiro das Missões, onde o sorriso, a palavra de carinho, o encontro e reencontro de pessoas que congregam na mesma cuia, no mesmo mate, com os mesmo ideias, de igualdade, de bondade e de acolhimento. 

Será uma semana cheia de eventos, comida boa, bóia campeira e boa música, além da atenção da Patronagem e seus comandados, o carisma dos associados e visitantes que vão compartilhar desses momentos. Não esqueça de levarem pratos e talheres para os almoços e jantares e no mais é só arrastar a bota e se divertir.

Vamos todos!

Fica aqui a programação de mais uma Semana Farroupilha!