MEU LIVRO

Esse é um livro que escrevi, mas que sem "plata", nunca pude editar. Queria compartilhar com vocês, se acharem que vale a pena, leiam e deixem-me seu parecer, vocês decidirão se devo ou não tentar editar.

Desde Já agradeço.

                                 Romance de um deserdado 
“São essas coisas do destino. O que está escrito, ninguém apaga”. 

A manhã cinzenta ia desenrolando as suas vestes sobre o vazio dos campos e os sereno cristalizado nas folhas verdes que estendiam um campo-mar, imensidão desenhada por um coxilhão que se estendia trazendo silhuetas de matos, canhadas e findava bem pra lá do horizonte.

Naqueles tempos em que os campos eram quase desertos. A imensidão das coxilhas formavam as grandes estâncias, onde o tempo passava lentamente, num cotidiano silencioso que até podia se ouvir o murmurar dos ventos.

“Nestes fundões do Rio Grande o tempo encurta a distância e a vida quase que para num belo quadro da estância”.

Estas estâncias eram formadas por grandes sesmarias de terras, água e mato, onde o gado vivia livremente, desenhando a bela paisagem de um Pampa intocado. A casa grande erguida de frente para o sol, com pedras e madeiras de um século passado, trazia na sua arquitetura toques da escravidão. As paredes, que mais pareciam fortalezas de pedras, num acabamento invejável, colocadas por mãos fortes com uma precisão cirúrgica. Com grandes janelas de madeiras de lei, embelezadas por frondosas roseiras e as belas flores dos jasmineiros, que enfeitavam o parapeito das casas, trazendo no seu interior, uma bela sala de visitas, decorada com móveis e utensílios banhados a ouro e prata, além de finas cadeiras estofadas, rodeando uma bela mesa de jacarandá. Diversos cômodos, uma cozinha com dispensa, varanda e um alpendre onde a família reunia-se nas noites de luar, para embeber-se do orvalho que teimava em banhar os campos, trazendo o cheiro do pasto.

Os campos de pastagens fartas, desenhavam imagens no topo das coxilhas, quase que totalmente abertos, poucos eram os lugares em que haviam cercas ou aramados. As divisas, muitas vezes, feitas por demarcações de sangas, arroios, mataria fechada ou alguma cerca de pedra, erguida ao suor da escravidão.

No lado externo, ao fundo, um enorme terreiro enfeitado de árvores frutíferas, apertando-se entre os frondosos troncos das figueiras e as cercas de pedras que demarcava todo o potreiro, encostando-se até o galpão, onde a peonada tratava os cavalos da estância. Mais ao fundo um pequeno potreiro, onde repousavam as vacas de leite. Ao lado, antes da mangueira, um poço de balde com um cata-vento, que ringia lentamente, na precisão de um relógio, conforme a força dos ventos.

A Casa grande, o galpão, o terreiro, o arvoredo, o poço de balde, tudo fora feito e planejado para facilitar a vida dos que lá moravam, mas nem sempre fora assim, pois em tempo de escravidão, a estância ficara conhecida pela brutalidade de seus Capitães e senhores que escravizavam e matavam os negros mais rebeldes ou que não serviam mais para a produção da estância, deixando em seu terreiro marcas profundas que nem o tempo conseguiu apagar.

Voltando aos novos tempos, agora a peonada da estâncias, vivem pelos campos, no lombo da cavalhada, lidando com gado xucro em rondas e pastoreios, sempre cuidando para que a produção do gado venha lhe manter o sustendo, gastando o tempo da semana, para nos domingos juntarem-se pelos bolichos, bebendo e fazendo farra, em jogatinas de carpetas e tava ou em carreiradas, onde apostam as minguadas platas que ganham durante a semana, mas sempre de olhos espichados para o lado das sirigaitas que por ali marcam presença.

Pois é numa dessas estâncias, na fria noite de um mês de agosto, no lusco-fusco de um lampião a querosene, sentada à beira de um fogão à lenha, acomodada na sua cadeira de balanço, dona Ruth quase dormindo ouve as estórias imaginárias de uma menina sapeca, que embalando suas bonecas de pano, sonha em estudar para ser professora. Seu Romeu arrastando os chinelos, já metido em seu pijama de riscado, segue lentamente na direção do quarto recolhendo-se para dormir. Na mesa grande da cozinha Tia Negra dá os últimos retoques na limpeza, deixando tudo alvinho para o dia seguinte, que começa cedo, muito bem antes do sol nascer.

Lá fora não se ouve um ganido de cachorro, nem uma prosa de peão, só o vento que teima em bater na janela, parecendo pedir para adentrar à casa grande e algum quero-quero goeludo assustado com as corujas que saem das tocas para caçar.

Por anos que as noites parecem iguais. Em tempos de inverno recolhem-se mais cedo para aquecer a alma junto às brasas de um fogão de lenha. Nas noites de verão recolhem-se um pouco mais tarde, pois ficam na frente da estância vendo o clarão da lua cheia nadar silente nas águas mornas do açude, ouvindo o ronronar da sapaiada que teima em orquestrar a noite, com cantigas de lamentos, contraponteados pelas cigarras cantadeiras que recitam suas cantigas suicidas, enquanto as crianças brincam de pegar vaga-lumes, para alumiar o fundo dos copos de cristais, tão alvos que dona Ruth guarda com zelo.

De vez em quando, Tia Negra puxa pela memória, assustando a criançada com suas fartas estórias de almas andarilhas, daqueles que partiram, mas não se desligaram e por vezes rondam os ranchos vazios, vindo beber a angústia da noite e rever o que não puderam levar para o outro lado.

Passa-se o tempo, Eleonor vai ficando mocinha e já não sonha mais em ser professora. Bonita e atraente com seus longos cabelos negros, chama atenção por onde passa. Os brinquedos, as bonecas de pano, foram deixados de lado e a menina sonhadora vê, aos poucos, seu corpo se transformando e já sente o peso da realidade, da vida cotidiana, cheio de atropelos, de trabalho, de luta para sobreviver.

Dona Ruth guarda-a como uma filha. Talvez a filha que sempre sonhara, mas o destino cruel, não lhe dera. Sempre preocupada com a menina, aconselha a não se meter com peão.

- “Que esses que andam por aí como aventureiros, de estância em estância, sem um lugar certo, não têm futuro”. – diz ela, com sua voz serena.

Imagina quem sabe, mais adiante arrumar casamento para Eleonor com o guri do Gaudêncio, fazendeiro renomado e compadre de alta estima, que tem um filho moço, bem educado e fora estudar no povo, um dia formar-se-á em doutor. Mas tudo não passa de pensamento, de imaginação e de bem-querença pela menina.

Na primavera as flores do campo parecem estarem, ainda, mais belas. As pitangueiras vestem-se de branco, exalando um perfume da mais alta fragrância. Os jasmineiros copados degustam o aroma da noite e transformam em perfume para embelezar as casas. O cantar da passarada nas manhãs de sol, trazem o gosto da vida para o interior dos ranchos. A fumaça branca das chaminés, desenham belas imagens, em nuvens cardadas de um branco tão alvo, parecem terem sido recém lavadas e enxaguadas pelas mãos ágeis da Tia Negra. A peonada vai saindo para as recolhidas, na mesma algazarra da cachorrada que brincam por entre as sombras dos cavalos, levando consigo o gosto da vida, tão pacata, mas tão boa desse tempo moço.

Dona Ruth, é uma mulher de fibra. Herdara a estância dos Pais, que morreram quando ainda ela era menina. Fez-se uma moça forte e decidida, desde cedo teve que aprender as artimanhas da lida. Estudou nos melhores colégios e aprendeu que na vida nada se consegue sem esforço, sem trabalho e sem coragem. Ensinamentos que tenta passar à todos que lhe rodeiam, que lhe seguem e que lhe ouvem.

Um dia conheceu o seu Romeu. Um homem fino, elegante, cheio de galanteios, bem apessoado, do qual seus velhos Pais tinham muito gosto e um grande apreço, pois era filho de um Comendador da República, que também estudou em bons educandários na Capital, mas nada queria da vida, a não ser o sobrenome e o dinheiro de seus Pais.

Dona Ruth não pode ter filhos. Tentou até um tratamento com um médico do estrangeiro, umas duas ou três vezes, mas não vingou. Fez simpatias, benzeduras, tratamento por conta, promessas, mas nada adiantou. Seu Romeu, às vezes, queixava-se com o seu compadre Antenor, de não ter um herdeiro para deixar àquela linda estância, na falta deles.

Foi nesse tempo, entre um tratamento e outro, que Dona Ruth mandou buscar Eleonor, uma menina magrinha, com olhos negros, grandes, profundos e um longo cabelo, também, negro, mas muito mal cuidado, com seis ou sete anos de idade, sua afilhada, pois a Mãe tinha mais onze filhos para criar.

Eleonor nos primeiros dias sofreu muito com a ausência de sua família, chorava e não entendia o porquê da separação, mas aos poucos, o carinho de Dona Ruth, os doces da Tia Negra, fizeram com que a menina fosse se adaptando à nova casa, tão grande, tão bela, onde ela foi sentindo-se uma princesa.

Ganhou muitos presentes. Um quarto só seu. Roupas, calçados, até perfumes à madrinha trouxe-lhe lá do povo. Matricularam-na escola. Menina educada e estudiosa aprendeu rápido que a vida de quem estuda é bem mais fácil e encantava-se com as leituras dos livros e jornais que seu Romeu trazia lá da Capital.

Passou o tempo, a menina cresceu e encantava a todos por sua beleza. Seus longos cabelos negros, agora bem tratados e penteados, um rosto fino, meigo, quase angelical, lábios carnudos e um par de olhos negros, tornavam o rosto da menina quase uma pintura, um desenho, desses que só existem em contos de fadas, que ela espelhava-se pelas folhas das revistas. O corpo ia ganhando formas e contornos de moça. A pele queimada pelo sois de verão, escondia sob os panos de belos vestidos de chita, que às vezes ficavam apertados no corpo esbelto, causando alvoroço da peonada que se encantavam com tamanha beleza.

A menina, às vezes, incomodava-se com a algazarra por causa dela, não entendia na sua inocência, o porquê de tanto alvoroço, pois ela só queria ser feliz, como qualquer outra pessoa. Queria poder brincar com as demais crianças, ir à escola, visitar as pessoas em suas casas, mas nada disso Dona Ruth deixava fazer, pois sabia que a liberdade que a menina gostaria, poderia causá-la um prejuízo muito grande para o futuro.

Dona Ruth, de quando em vez, encilhava um cavalo e ia para o campo, junto com a peonada, ver algum terneiro novo que havia nascido ou alguma vaca que estava parindo, cerca para consertar, essas coisas da lida do dia a dia. Enquanto seu Romeu, quase imprestável, ficava por ali pela casa perambulando que nem fantasma, metido num pijama, lendo aqueles livros que ninguém sabe para que serve.

Assim os anos foram passando e a menina tornara-se moça. Ajudava de igual para igual as serviçais da casa. Lavava, passava, às vezes, cozinhava, varria a casa, arrumava as camas, sempre prestimosa. Sonhava um dia ter a sua casa, seus móveis, seu quarto de casal. Vaidosa como toda moça, não deixava um dia se quer de se arrumar, pentear os longos cabelos, engomar os vestidos, passava pó no rosto e só saía de casa, se estivesse totalmente linda, ninguém podia vê-la desarrumada.

Dona Ruth continuava saindo para o campo, em suas cavalgadas, mas agora era mais raro. Quando ficava em casa, muitas vezes ela mesma gostava de cozinhar, fazer seus pratos extravagantes, com bastante tempero, verduras, legumes e só comia carne branca. Depois ficava ali pela estância dando ordens para a gurizada, dos serviços que ela queria.

Uma manhã, de sol radiante, ela deu as ordens que costumeiramente dava a todas ali na casa e quando saía para recomendar a peonada no galpão, o capataz confidenciou-lhe alguma coisa, ela prontamente entrou na casa, trocou de roupa e quando saiu já encontrou seu cavalo selado à sua espera e foi para o campo.

Pois foi numa dessas saídas da dona Ruth, para resolver os problemas no campo, que o seu Romeu aproveitou-se da pobre da Eleonor.

Contam que numa manhã quente de verão, a moça estava solita numa sanga, que fica, até bem perto da casa, lavando uma trouxa de roupas, quando o infeliz chegou fazendo galanteios e promessas descabíeis. Aproveitando-se de sua autoridade e da ingenuidade da pobre moça e fez a sem-vergonhice com a coitada. Uns dizem até, que ele pegou-a força. Um peão que andava campereando, casualmente estava próximo dali, ouviu os gritos da coitada. Chegou mais perto e deparou-se com o maldito agarrando-a. Até pensou em ajudá-la, mas como era com o Patrão, jura, até hoje, que não viu nada. Ganhou um ranchinho lá na costa da restinga, mas vive de bico calado.

Eleonor voltou para casa, com os olhos rasos de água. Nunca imaginou que um dia aquilo pudesse acontecer com ela. Nos seus sonhos de menina-moça, sempre imaginava encontrar um homem que ela amasse, para entregar-se inteira ao amor que lhe merecia. Mas não, a um velho como aquele, um verme caquético, acima de tudo imprestável e que ainda ficou ameaçando-a, caso ela contasse alguma coisa, ele a mataria.

Ela, moça direita, não consegue olhar mais para ele, quanto mais para dona Ruth, a quem muito deve e a tem qual uma mãe.

Enquanto essas cenas teimam em atormentar suas ideias, ela vai fazendo os planos, tirando as suas próprias conclusões e vê estar chegando à hora de deixar tudo para trás, todos os sonhos, tudo aquilo que viveu naquela casa, pois não aguenta mais sufocar o segredo que esconde na dor de seu coração, além de ter que conviver, na mesma casa, com àquele verme caquético que lhe lança olhares de grandeza.

Passados alguns dias e com medo de aparecer barriga, Eleonor vai embora da estância. Sem mala, sem nada. Deixando para trás as poucas coisas que tem.

Ainda não se sabe como, nem com quem. Se, foi um desses Peões, que nas noites quietas, teimam em fazer galanteios para a bela moça ou é alguns daqueles que vivem mandando chasques pelo Murcia, um negrinho estafeta que anda aqui pela estância, e que vive de cochichos com a Eleonor.

Dona Ruth sem saber do acontecido. Nem desconfia que a menina que ela criou com tanta estima, foi desonrada, no auge dos seus quatorze anos e logo por aquele verme imprestável que ela tem como marido.

A pobre velha quase enlouqueceu. Mandou a peonada procurar Eleonor por toda estância e pelas estâncias vizinhas. Foi gente ao povoado. Até nas cidades mais próximas, andaram procurando Eleonor, mas nada. Ela sumiu, partindo para muito longe dali, não se sabe como, nem com quem.

Sua ausência repentina causou inquietudes nos que ali moravam. Dona Ruth acabou adoecendo, foi preciso chamar o médico da Família. Por muitos dias não queria se alimentar. Chorava com a ausência daquela que ela dedicava tanto amor e a amava como filha. As noites ela vai para o quarto de Eleonor, pega suas roupas, cheira, conversava com elas, como se elas, as roupas, fossem a sua menina. Tudo ali permanecia intacto, a moça sumiu sem levar nada, uma sacola se quer. Seus brinquedos, suas bonecas, seus sonhos, tudo ali. Só ela não estava. Mandou o velho Romeu avisar os Pais da moça. Os Pais procuram-na por onde podiam: na casa de parentes, em alguns conhecidos de ambas as famílias, nas pensões do povoado e nada. Até o delegado foi avisado do sumiço da moça, que fez as suas buscas e também não encontrou nada.

Onde estaria Eleonor?
Passaram-se os anos, os campeiros temerosos com a matança que acontecia por causa da revolução, diminuíram as tropeadas. Dizem até, que lá para as bandas da fronteira, os Castelhanos degolaram mais de trezentos num só dia. Isso eu não sei se é verdade, mas que andavam matando gente, isso andavam.

Ao anoitecer as famílias trancavam-se nas casas e qualquer uivo de cachorro já era motivo de saltar para o vão das janelas, espiar se não era gente da revolução ou algum fugitivo da correição. Num Jornaleco que seu Romeu trouxe do povoado, tem um retrato que mostra eles invadindo uma estância, perece que são mais de mil. Negros, índio, castelhanos, tem de tudo!

Mas aqui na estância, continuava tudo na mesma. A vida pacata só tem algum movimento quando vem o Pedrerinha da Viola, um mascate antigo, trazendo no baú de uma aranha, puxada por um cavalo preto, roupas coloridas de chita e tecidos de fino trato que, segundo ele, são lá do estrangeiro, muito usados pelas madames dos coronéis nas festas do povo, nas missas da catedral ou nas rezas de procissão para pedir chuva, em tempos de seca. As notícias que ele traz sempre chegam com um certo exagero e com três ou quatro semanas de atraso, mas é o único meio de saber de alguma coisa diferente.

Nessa semana a notícia triste, na estância, foi a morte do Seu Romeu, que já vinha doente há dias, mas por outro lado as coisas se acalmaram um pouco, pois dona Ruth já vinha se cansando com tantos cuidados. Para ajudar na estância, ela contratou um capataz, para tomar conta do gado e um chacareiro, que construiu uma casinha lá no costado da sanga, onde as serviçais vão lavar as roupas.

Um Domingo, o dia amanheceu diferente. Era o início da primavera. O arvoredo copado enfeitando-se de flores, com mantos de maria-mole colorindo o beiral dos corredores de chão batido. As flores dos Ipês amarelos dourando os galhos. A passarada revoando com cantigas tão belas. Um João de Barro, solitário, reergueu sua casinha na cabeça de um palanque, cravado na porteira da mangueira, onde a peonada trata a cavalhada da estância. Um bando de garças brancas estendem-se pelo beiral do açude, de água cristalina, onde espelha-se o manto de um céu azulado, desenhado por figuras de nuvens alvas. A cavalhada pasta na frente da estância, enquanto outros de corpo suados ganham a liberdade das encilhas, indo rebolquear-se no ponche verde da grama de trevo e maçanilha, nas sombras compridas de frondosos tarumãs e figueiras que rodeiam as casas.

A tarde parecia embala-se lentamente e lá por entre as flores das marias-moles, avista-se um vulto. De longe, parece uma mulher, num cavalo ao tranco lento, vindo na direção da estância. Com o sol deitado de um fim de tarde, parece que aquela figura não vai chegar nunca. Cansada, esbaforidas pelo calor intenso, mal troca o passo de um cavalo velho e ao aproximar-se da casa grande, com a algazarra da cachorrada, é que dona Ruth fora avisada da pessoa que vinha chegando.

Ao sair para fora da casa grande, dona Ruth depara-se com Eleonor, a moça que tanto procurou, voltou trazendo consigo, um menino lindo, com grandes olhos verdes, um sorriso encabulado e um jeito de homenzinho. Vestindo uma calça curta com tirantes, uma camisa branca suja da poeira da estrada e um gorro, igualzinho ao que o seu Romeu costumava usar.

A mulher derramando-se em lágrimas abraçou-se à dona Ruth, com força, numa mescla de carinho e gratidão, arrependimento e saudade. Tantas coisas estavam passando na sua cabeça, nesse instante. Dona Ruth sensibilizada e ao mesmo tempo espantada, mas alegre, sente naquele abraço, um alívio que a atormenta ao longo desses quatro anos. Pois sente por aquela moça, um carinho muito especial, desses de Mãe para filha e nunca entendeu o porque, da menina que ela viu crescer brincando pela fazenda, um dia sem mais e nem menos ter partido, sem dar notícias, nem ao menos um bilhete.

Após um longo abraço em Eleonor e muitas lágrimas derramadas, dona Ruth pegou o pequeno Nico, Nicolau Alfredo, nome de batismo, por que registro a criança ainda não tinha, abraçou-o fortemente e após beijar aquelas bochechas avermelhadas pelo sol da tarde, foram para dentro, onde um suco de pitangas colhidas à pouco refrescava aquele olhar inocente.

Eleonor mais uma vez, é bem recebida na estância. Seu jeito simples, hoje de mulher sofrida, ainda traz a meiguice da menina, num encantamento poucas vezes visto, mas com olhos tristes de quem teve que ser Mãe, mesmo sem querer e com tão pouca idade. Essa noite foi longa, mas Eleonor pode contar tudo o que guardou durante esse tempo sofrido, vivendo longe da estância e do carinho que todos sempre tiveram por ela. Contou detalhes dos acontecidos e como fizeste para ir embora. Dona Ruth no fundo já sabia que algo havia acontecido de grave para ela ir embora, só não imaginava o quão grave que era. Entre lágrimas e abraços a vida voltava a sorrir nos lábios tristes da moça, agora com um filho para criar, mas de volta à pessoas que amava.

Nico um menino esperto, cheio de saúde e encantamento, após um banho e o lanche, foi dormir, mas logo já se acostumou com as crianças e com os serviços, que toda criança, apesar da tenra idade, tem que fazer na estância.

Menino simples e bem educado, tudo o que pedia sempre tinha um ”por favor,” e quando recebia um “muito obrigado”. Apesar de tudo, na casa grande não haviam regalias, trabalhava de igual para igual com as demais crianças. Desde pequeno já sobia de seu compromisso.

Os dias passam rapidamente no aconchego desta casa, que Eleonor conhece tão bem. Ela já começa tomar conta de tudo na cozinha. Ajuda a Tia Negra nas lides do dia a dia. Faz queijo, doces, pão de forno, ambrosia, é a responsável pela arrumação da casa e das camas. A vida, aos poucos, parece voltar ao normal.

Nico que fora registrado sem Pai, agora era batizado na capela do povoado, pois chegava à idade de ir para a escola, para isso precisou-se de registro com certidão como toda e qualquer criança.

De madrugada, antes de sair para a escola, traz as vacas para a mangueira, que fica atrás do potreiro, próximo da casa, para tirar leite. Laça os terneiros, apoja as vacas, carrega os baldes para por o leite, faz com orgulho todos os serviços para ajudar a sua Mãe. Ali mesmo toma seu café matinal, um copo de leite quentinho, recém-tirado, adoçado com mel e pão ou guerrudo de milho, carinhosamente feito pela tia Negra.

Depois de soltar as vacas mansas, lava os pés numa tina de água, calça seus tamancos, feitos de corticeira e couro cru, pega seu alfarrábio, colocado num bocó e junta-se as demais crianças numa carretilha que os levam até a escola, que fica a uma légua e pouco da casa grande da estância.

Menino esperto e inteligente. Tão esforçado que em pouco tempo já aprende o “beabá”. Faz contas. Conhece os números e enquanto volta para casa conta tudo o que vem por diante: bois, vacas, terneiros, tramas, palanques, árvores, faz-se sua lição brincando.

Outro dia, o frio de inverno brabo quando Nico voltava da escola com o corpinho ainda frágil, bastante debilitado, veio o tempo todo deitado na carretilha. Não quis brincar, não sorriu, o rostinho avermelhado mostrava que o menino não estava bem. Uma tosse seca incomodava-lhe e ao chegar na casa grande, foi motivo de espanto para todos.

Nico estava doente e, parecpa ser Coqueluche. Recolhido ao seu quarto com uma febre muito grande o menino dormiu. Colocaram-lhe compressa com água fria. Deram-lhe: chá de laranjeira. Chá de casca de vergamota com mel. Fizeram-lhe benzedura, banho de salmoura em água fria e nada do menino melhorar.

À noite dona Ruth mandou Eleonor carnear um frango, que estava cevando e fazer uma canja bem forte, com milho verde, moranga, raspasse um tutano de osso de boi e dar para o piá que ele iria melhorar. Mas nada disso adiantara.

Na noite anterior ninguém dormiu. O menino passou tossindo, num suador de trocar as cobertas duas ou três vezes e falando coisas sem sentido, para o espanto de todos.

Na manhã seguinte, apareceu na estância, como de costume, o Seu Sabino.

Seu Sabino é um bugre velho, tumbeiro, solteirão que vive de casa em casa e na estância tem até um quartinho pronto para ele. Sempre que chega traz seus ensinamentos de ervas, jujos, comidas e até brinquedos para as crianças.

O bugre velho vendo o menino naquele estado, de pronto que era coqueluche e que o remédio encontrava-se a umas duas léguas de distância da estância e só o que poderia curar o menino seria leite de égua, de primeira cria e recém parida.

E foi isso que ele mesmo faz. Atucanou-se num galopão de estafeta e logo após ao meio dia, com o pingo velho derramando em suor, ele voltou com uma garrafa do dito leite, fez um chá bem quente com funcho e galhos de erva mate e deu para o piá. Foi tiro e queda. O guri que havia passado mal os últimos dois dias, logo já começou a melhorar, foi caindo a febre, já falava algumas coisas e até fome começou a sentir.

Veio a noite, bem mais tranquila e, no outro dia o guri já estava esperto de novo. Não querendo ficar de repouso, já pronto para brincar com a criançada, que não puderam entrar no quarto nesse período da doença do Nico.

Seu Sabino ensinou muita coisa para o guri. Desde que chegou à estância, Nico apegou-se ao bugre velho. Antes pelos carinhos que ele fazia, depois um pouco mais crescido, pelos causos que o velho lhe contava e brinquedos que ele ensinou a fazer, mas mais ainda pela presença de um homem, de um Pai que ele nunca teve.

Às vezes, logo que o menino chegou à estância, recebendo tanto carinho do velho amigo, que quando alguém perguntava:

- Quem é teu Pai, Nico? - Ele baixava os olhinhos e respondia:

- É o Tabino - Dizia em voz baixa, tanto era o apego do guri por aquele que os adultos não davam importância alguma e que viviam como andarilho pelas estâncias sobrevivendo de favores.

Amanhã haverá carneada na estância e seu Sabino parece que adivinhava os dias de matança. Antes de entrar o verão Dona Ruth manda carnear um boi gordo e um porco, que são engordados, por meses. O Porco para a higiene de todos é engordado num chiqueiro, muito limpo, lavados todos os dias e com muita comida, ali sob as Pitangueiras, próximo à mangueira de pedras.

No final de tarde a gurizada juntamente com o Murcia, andam lá pelo terreiro amontoando lenha, puxando água, arrumando a mesa grande do galpão, ajeitando as taquaras para os varais, deixando tudo pronto que amanhã cedo, antes do cantar dos galos, já querem estarem todos de pé prontos para a empreitada.

E assim acontecia. O dia amanhecera com cara de sono. Quando os primeiros raios do dia começavam a botar a cara atrás dos cerros, a peonada já andava em volta com um boizinho de sobre ano, que ficou na mangueira e que já vem atropelando o laço, para baixo de uma figueira grande, lugar onde será estaqueado o couro.

Lá pelo galpão a gurizada atiçando lenhas no fogo, onde um panelão de água fervendo já está pronto e aos poucos a água será levada nas chicolateiras, para pelar um porco que ocupa todo o tamanho das tábuas, feitas de mesa, embaixo de uma ramada.

O dia inteiro será de lida e algazarra de gurizada e dos adultos, numa prosa e alarifes, regado a muita canha e ao meio dia um churrasquito na brasa. Já no final da tarde o galpão estampa os varais de salames, os ossos serrados, num panelão fervendo, com mandioca, uma vaca atolada. E a indiada por ali, na beira do fogo, tomando mate, contando causos e dedilhando uma viola campeira, para esperar a noite que se aproxima.

Nesse dia fizeram varais de charques e salame. Tiraram a banha para dar bóia pra toda essa gente da estância e as “frissuras”, o velho Sabino faz o seu famoso “misturado”, uma iguaria jamais feita por alguém. Mas essa é a especialidade dele. Tudo o que ninguém quis: bucho, mondongo, tripa grossa, fígado, rins, cabeça e até o “sessenta folha”, o bugre velho botou num panelão de ferro, ferveu com bastante sal, pimenta, manjericão, tempero verde e até alguma urtiga foi junto, diz ele que é para melhor fazer a digestão e depois de tudo fervido e bem cozido, ele deu um jeito de terminar logo com “essa lambança”, depois, ainda, aproveita para tomar uns tragos de vinho e de sobremesa uns três ou quatro mates virados, para “sentar a bóia”, talvez esse seja um dos segredos de sua longa idade, mas agora está ali atirado nos pelegos gemendo como um condenado e tomando chá de carqueja.

No outro dia a rotina voltou ao normal. Nico, depois do almoço, enquanto dona Ruth sesteia, anda lá pelo pátio, junto com os outros piás, fazendo seus próprios brinquedos. O guri é muito criativo, seus brinquedos são especiais: Cria grandes estâncias imaginárias, com gado de ossos, que junta pelos campos. Os maiores e melhores tem nomes: Lampião, Campeão, Chatinho, são alguns de seus bois de canga. Tem cavalos de encilha: Russo, Picacinho, tordilho, entre tantos. Além de bois e cavalos, tem uma carreta, feita de caixa de marmelada, potreiros de uma estância fechada, que fica atrás do galpão, na casinha das ovelhas.

Na sua estância imaginária tem sangas, açudes, tudo feito com capricho, que às vezes lhe custa algum puxão de orelha, para não usar a água da tina onde todos bebem.

Os sabugos de milho são partes da tropa mais valiosa que ele negocia com os demais meninos, aumentando ainda mais a sua pequena grande estância imaginária.

Sempre que dá ou que pode, Nico dá uma fugidinha da estância e vai lá do noutro lado da restinga, na Picada da Chácara velha, visitar o velho Pedro e a Tia Joana. O Velho Pedro vive por ali, tem um pedacinho de terra, uns gadinhos e uns dois ou três cavalos. Vive ajudando nas lidas das estâncias, plantando uns roçados, para sobreviver. Tem um filho de pouco mais de dez anos que fora levado para ser jóquei e não sabem nem onde se encontra por esse mundão.

Certa vez chegando lá, num domingo cedo, o velho estava mateando junto ao fogo de chão e pediu que o Nico escrevesse um bilhete para o guri, que ele ditou:

- “Quando me sento para matear todas as manhãs, neste silêncio em que rumina a solidão, sorvo no mate o gosto amargo da saudade, se tua ausência fez em meu coração”. Quando contemplo os teus bastos num cavalete e o par de esporas bem novinho que te dei, renasce o sonho de ver-te um dia o meu filho, domando a vida, neste trono em que fui rei.

Por onde andas, o meu filho, por estas horas? Talvez perdido no teu sonho de vencer, aqui mateando eu posso vê-lo galopando na vida simples do chão em que te viu nascer.

O teu petiço no potreio anda inquieto, sentindo a falta de um abraço e de um carinho. Até o guaxo brincalhão, que deste o nome, berra de fome, não sabe viver sozinho. A tua Mãe perdeu o brilho dos seus olhos, afaga as roupas e os brinquedos que deixastes, restam dois velhos e nosso rancho, sem alma, porque também nos fomos por onde andaste.

Olho para o campo e pensativo, eu me pergunto: Qual o sentido desses anos de labuta? A nossa terra e os aperos que não usas. O sabiá canta, mas minha alma não escuta. És meu parceiro, meu amigo e meu futuro, me dói à incerteza, de por onde andarás meu filho. A noite chega e a esperança da oh! de casa, para anunciar que voltarás em teu tordilho”. -

Foram as palavras mais tristes que o Nico escreveu na sua vida. Não sei se o bilhete foi entregue, mas a verdade é que o filho do velho Pedro nunca voltou.

Passaram-se os anos, o menino cresceu, a responsabilidade aumentou. Não precisava mais ir à escola, o que aprendera já era suficiente para um peão de estância. Sua estância imaginária perdeu-se no meio do “pafonal” que tomava conta, os brinquedos de criança, os jogos de bola, feitas de meias ou bexiga de porco, tudo agora era passado.

Nico não queria mais morar na casa grande. Vivia pelo galpão junto à peonada. Levantando antes do cantar dos galos para as recolhidas do dia a dia, faz do lombo do cavalo a sua escola. Laçando, pealando, curando terneiros, apartando gado. Nas lidas de todo o dia, junto à peonada era o orgulho daquele menino que chegou ali vindo não se sabe de onde, mas com a presteza que poucos conhecem.

Ganhou do Velho Chico seu primeiro par de botas, garrão de potro, tiradas de um potro baio que morreu de garrotilho, gordo, de bom estado, redomão que nem havia sido amanunciado e que o velho Chico, infelizmente, teve que sangrá-lo.

Foi um dia triste, sempre é um dia triste ter que matar um cavalo. O Velho Chico na sua experiência, solito, levou o potro para o fundo da estância e fez o sacrifício, mas aproveitou tirando-lhe o couro das duas pernas e deixando curar, fez um belo par de botas, atadas com tentos de couro cru, na ponta e na parte de cima, nunca imaginou que seria um belo regalo para um peão que estaria começando a vida, na lida.

À noite, na volta do fogo de chão, Nico encantava-se ouvindo os causos, estórias de peleias e carreiradas. Fez de um couro de boi sobre quatro estacas, seu catre para as noites de descanso. O petiço que havia ganho de dona Ruth, para ir à escola, agora seria apenas o seu companheiro para alguma volteada pelos bolichos ou nas fuzarcas de carreiradas de alguns domingos. Para os rodeios, ele garboso, encilhava a capricho, um tostado frente aberta, patas brancas cruzadas, crina grande, com a franja comprida lambendo as ventas, domado à capricho, que ganhou ainda potrilho, por ter ido bem à escola.

Numa noite dessas, de lua cheia, clara que nem um dia, o Guri, que já se acha Moço, saiu para caçar tatu, com o João Brum. Foi a primeira vez que se arriscou pelos matos. Um facão na cintura, um lampeão de bucha de estopa, três ou quatro cusquinhos e a coragem.

João Brum, caçador antigo, experiente no rastro das mulitas, conhecia aqueles peraus como a própria palma da mão. Se metia pelo mato adentro e logo a cuscada já batia no rastro dum “coludo”. Não é que naquiela não é o piá se botou moda a “loco”, no rastro da cuscaiada, cruzou uma sanga e do outro lado num descampado. A cachorrada peleava com o bicho. Arrancou do facão e se foi para cima do dito cujo e já recebeu de pronto uma “mijada” na cara, com os olhos embaçados e o “fedor” entranhado nas ventas, viu de pronto que não era o que esperava, pois até os cachorros se enganaram, era um “zorrilho”.

Nessa noite não prestou a caçada e até foi bom. Tomou um banho na sanga e voltou para o galpão, deixando o companheiro de caçada, entranhado naqueles matos. Mas também de nada adiantou o banho, pois fedido e de pronto foi corrido do galpão e teve que dormir lá fora no pé de uma figueira.

Mas o pior ficou com o João Brum. Indío velho, desses tauras valentes, que não refuga bolada, nessa noite ele jura que não bebeu nada, apesar de gostar de uma branquinha de barril, segundo o que ele conta:

- Pois num é que eu vinha “tranqüio”, trazendo uma mulitinha que “os cachorro” tinha entocado naquele capão de mato lá da sanga do velho Quinoca. Tava cansado, mais resorvi limpar o bichicho ali na sanga mesmo. Mais por aí tudo bem! Pus não é que quando eu tava “acocarado” na beradinha da sanga, bem ali nas pedras do passo, começando a limpar a mulitinha, a cachorrada disparou, ganindo mato adentro. Ué!, pensei... vão bater noutro tatu. Mais não dei bola, continuei limpando, a mulitinha, quando fui me levantar, aquela “cosa sartô” por riba de mim, caindo do outro lado da sanga e já de “zóio estaquiado” cumas “oreia” grande, paricia um cachorro, mais assim do tamanho dum ternero, heheheheh

Bueno! Larguei tudo lá, só “truxe” o meu facão, que desse eu não me separo. Tu sabe que eu não acridito nessas cosas, mais que aquele “oreiudo” era o dito cujo, há isso era! hehehe

O “dito cujo” que o João Brum se refere, é o tal de Lobisomem. Tem gente que não acredita que possa existir lobisomem, mas o modo como ele conta essa estória, às vezes, até eu passo a acreditar na existência do bicho, inda mais que, a uns dias atrás, o seu Arnor jura de pé junto, que se topou com o orelhudo, lá nesse mesmo passo do Quinoca.

Mas foi pelos galpões que o Nico dominou a arte de trançar cordas, emendar laço, fazer rédeas, desquinar couro. Fez os seus próprios aperos. Pelas tropeadas, apartes e marcações, está sempre pronto. Até quando a peonada encerra a potrada xucra, na mangueira, para doma, ele está lá por perto, ouvindo os conselhos dos mais velhos. Aprendeu como tratar um cavalo, como respeitá-lo, à hora de domar, de enfrenar, o segredo de tirar manhas, baldas, coscas. De lidar com bagual, tempo e jeito de domar um potro xucro. Sempre atento faz dos conselhos o seu alfarrábio para a vida campeira que, a cada dia, torna-se mais perigosa, mas mais cativando e de responsabilidade.

Um dia desses, era uma Segunda-feira. Antes da madrugada trazer os primeiros raios do dia a peonada já estavam pela mangueira trabalhando uma potrada para a doma. Junto àquela bela tropilha viera um cavalo que era temor de qualquer peão. Um tubiano de marca borrada, arisco que nem capincho, ligeiro que nem quatiara, que dava coice até na sombra. Pois era com esse tubiano que a peonada andava envolta, quais as palavras do Poeta.

Lá do galpão, o capataz por entre os galhos da Timbaúva grande, o Capataz, viu o vulto de um taura chegando e, somente ai que se dera por conta que faltava um, entre os Peões da estância, que se atrasara para a lida e isso era imperdoável.

Ao longe vinha o Pedro Bicho, um taura de quase dois metros de altura, uma melena tordilha que beijava a gola do pala, barba grande de esconder as tranças do barbicacho e um par de olhos ariscos, trazendo um azul, mais azul que o céu, mas que, tresnoitado, banhava-se de raios de sangue, de quem passava a noite na farra e chegava arrastando um par de esporas goeludas, tirando leivas de grama e tilintando no pedregal do terreiro. Pela rédea, trazia um baio rosado, na encilha, suado e fogoso como quem viesse em disparada, de muito longe.

Chegava à porta do rancho trazendo na flor do jaleco, um perfume de china nova, da farra da noite inteira. No canto da boca um tucho de um baio apagado e nos olhos um ar preocupado de quem sabe o valor da sua pena. Mais outra vez atrasado, contrariando todas as ordens do capataz, que não perdoava atraso:

- Buenos dia, senhores. – Disse com uma voz calma.
- Buenas tarde – respondeu o Capataz – Por onde andaste parceiro?
- Meio perdido nos braços de uma china, meu senhor! – falou com convicção;
- Pois que pena! Espero que esta mesma esteja contigo, no lombo daquele Tubiano – falou o capataz, apontando o beiço, para o lado da mangueira.
- Se esta for a minha sina, eu não me faço de rogado, pelos braços daquela china, enfrento uma tropilha inteira! – respondeu-o, saindo de cabeça baixa, arrastando as chilenas, na direção da mangueira e já levando entres os dedos, além de braça e meia de um tento forte, um par de esporas sete dentes e no punho um a mango de couro cru.
Nico vendo esta cena, sentiu um arrepio pelo corpo, de medo, de espanto, ver que um homem pode ser sacrificado por não respeitar as regras da estância. Tentou argumentar com o capataz, mas de nada adiantou.
- Aqui, a vida, é assim, meu rapaz, compromisso é compromisso e a palavra é um tiro, depois de dada não se volta atrás – respondeu-o com ar de confiança e seriedade.
Chegando à mangueira, deu uma olhada sob a aba do chapéu. O bagual já vinha manoteando o cabresto, de venta rasgada, na direção de um palanque, numa fúria descomunal. Com um baixeiro na cara, sentava medindo forças com um cabresto de três tentos de sovéu torcido.
E o tal de Pedro ali, ajoujando um par de nazarenas com toda a calma e maestria. Talvez arrinconado no galpão da alma, trazendo emoldurado no quadro das retinas a imagem daquela china, pelo qual se atrasou, só por roubar-lhe um beijo na cancela. Por instantes passaram cenas daquela noite: O negrume dos cabelos, o perfume da pele macia. Tão airosa. Tão cheirosa. Tão sorridente que iluminava a escuridão de uma noite, só com o lampejo de um sorriso. O quentume daquele corpo macio, ainda trazia com ele e que era a razão maior daquele momento.
Levantou os olhos para o céu e fez uma oração caprichada, pedindo com toda a força das palavras, a proteção divina. Por certo nessa hora, a imagem da prenda amada vem envolta ao manto de Nossa Senhora, mas o preço que tinha a pagar era muito alto, topar com àquele tubiano capincho, seria quase que enfrentar a própria morte.
Oiga-te sina baguala! que traz um pobre peão, há poucas horas enternecia nos braços de uma linda, como quem flutua no céu do amor e agora ali metido no fogo do inferno, bem prestes à enfrentar a força do capeta. Mas um Homem não refuga, nem que pague com a vida a palavra dita, a honra emprenhada.
Acendeu o tucho que trazia no canto da boca, tapeou o chapéu na nuca e se enforquilhou no “urco”, trazendo a alma pesada e o coração derretendo-se pelo amor de uma mulher.
Nunca vi tanto ódio nos olhos de um triste peão. O amor que trazias no peito, pela linda que deixara na volta de algum corredor, transformou-se em ódio. Ódio, não pelo cavalo, mas por ter sido cobrado na frente do resto da peonada, por um gesto tão simples, tão banal, que são alguns minutos de um tempo escasso, dos braços de quem lhe faz bem.
Faz uma trança de crina, cruzou a tala do mango, tirou uma longa tragueada e mandou soltar o ventena. Me pareceu à prosa mais longa, entre um homem e um cavalo. O tubiano parecia estar endiabrado, mas o Pedro velho, esse sim parecia o próprio capeta.
Nunca ninguém ficou tanto tempo no lombo deste capincho. Depois de corcovear como um louco, se pegando para os dois lado, juntou a cabeça entre as mãos, volteado que nem caroço, e “as sete dente” iam mordendo do sovaco às virias, com um tala chata batendo, de vez em quando trocava de mão e seguiam na mesma dança, num jeitão descompassado, medindo forças, entre Homem e Cavalo.
Por algum tempo a luta foi brutal, depois o cavalo entregou-se, cansado, esvaindo-se em suor, estaqueou-se, baixou a cabeça e ficou ali, parado, na espera de uma ordem final. Pedro alçou a perna e saiu caminhando de volta para a mangueira, limpando as borras de um pito, que sujou a camisa branca, com machas de um batom cor de pitanga, vindo ao encontro de todos que o olhavam com espanto, por mais aquela proeza.
Nico vendo, ficou espantado por tudo que o cavalo fez e um peão ainda parar encima? apesar de um certo medo, de um receio e do respeito que sempre teve pelo amigo Pedro, não aguentou a curiosidade e depois de um longo abraço naquele taura que admirava tantos, não se conteve a perguntar-lhe como podia?

Passando alguns dias e ainda com aquela imagem nas suas retinas, Nico achou-se pronto, para domar uma potranquinha tostada, patas brancas que havia sido amanunseada pelo próprio Pedro e que já há havia dado os primeiros galopes.
Lembrando-se dos conselhos e tudo o que havia apreendido. Achou ter chegado à hora de começar a sua vida de ginete. Conversando com muito zelo e respeito pelo animal, botou o bocal com muita dificuldade, pois não queria machucar àquela linda potranca, passou o baixeiro para tirar as coscas, sentou o basto, botou uma ou duas garras, apertou a cincha. Quando a potranca se estaqueou, parada, quieta, Nico sentiu medo, seria essa à hora de montar? – Ou então desistir! –
O corpo franzino, sem muita força, precisa, acima de tudo, de coragem para aguentar a força de um cavalo. Mas recuar não era hora. Então, encorajado pelo Negro Juca, domador dos mais antigos, que já perdeu a conta de quantos cavalos domou e quantos tombo já caiu e estava ali, junto com ele, para amadrinhar nessa difícil empreitada, que é montar pela primeira vez num cavalo xucro, que ninguém sabe o que vai fazer: se corcoveia, se dispara ou se sai tranquilo ao tranquito.
Ao colocar o pé no estribo a égua estremeceu. Com as pernas bambas ele montou. Pegou as rédeas do bocal e soltaram a Teatina, nome que ele deu a essa belezura de potranca. Foram três ou quatro corcovos e após um galopão desesperado campo afora indo esbarrar lá no corredor da frente, junto à taipa de um açude.
Nico olhou e não viu ninguém com ele amadrinhando. Sentiu que estava sozinho e que a vida havia lhe pegado uma peça que somente ele poderia resolver, não era hora de fraquejar. O piá ficou homem e como homem tem que saber sair das situações difíceis como aquela. Negro Juca sabia que a égua não corcoveava, pois o Pedro já havia dado uns três ou quatro galopes com ela, mas precisava saber da coragem do menino.
Ganhou a potranca de presente, como troféu para nunca mais esquecer, a sua primeira montaria. Depois desse galope, ainda tiveram outros. Depois puxar de baixo, quebrar o queixo, sovar na rédea, essas perícias necessárias para o apronte de um bom cavalo. E foi assim, que ele começou sua vida, no lombo da cavalhada, de xucros e mal domados, tornando-se um ginete afamado pelo rincão.

Nico, pouco tempo depois, tornou-se mais um domador da estância. Campeiraço de mão cheia, apesar da pouca idade, já se sentia pronto para enfrentar a dureza desta lida e da vida do campo.
Seu futuro estava marcado. O que fazer um homem que nem Pai tinha? Mas pouco importava naquele momento, ter ou não ter Pai. Dona Ruth, velha e um tanto doente, não quis deixar a estância para se tratar. A Mãe, Eleonor, sempre a serviçal prestimosa, que de tudo cuidava, tudo fazia, mas ganhava somente cama e comida. Ele não tinha outra saída, a não ser um eterno peão, viver pelas estâncias domando, jogando, tropeando, cuidando dos tarecos alheios. Pois com essa idade, nem sonhar era possível e a estância de brinquedo ficou na lembrança de um tempo bom, mas passado e que não voltava mais.

Estava chegando a primavera e na estância a peonada preparava-se para a castração da terneirada, que não são poucos. Nos dias de castração juntavam-se a peonada de outras estâncias, os moradores do rincão e alguns que aproveitavam para vir comer e beber a vontade, às custas do velho estancieiro.
Desde de muito cedo à peonada andava pelo fundão dos campos, juntado gado, num pelado de rodeio e ali iam formando as equipes de três ou quatro laçadores, apartavam um terneiro e iam laçando, pealando e derrubando, depois, o castrador, na perícia de suas mãos, beneficiava o touro e já castrado e assinalado, para não ficar orelhano, libertava-se o terneiro, enquanto os bagos iam para as brasas, para alegria e festança da gurizada.
Assim passavam quatro ou cinco dias de lida. À noite tinha toques de gaita, de viola, jogo de truco, o churrasco à beira do fogo, canha, chimarrão e depois a peonada atirada pelos galpões ou por baixo do arvoredo, na espera do dia seguinte.
Dizem que o Velho Inácio, estancieiro grande, ali pra bandas do Itu, esse ano deu uma modernizada na festança. Umas duas semanas antes, da castração da terneirada, ele botou a velha dele num trem e mandou ir passear na capital, na casa de uns parentes que ela tem por lá. Mandou dois piás, estafetas, descerem o rincão afora, um desde o Farinheiro até o Santa Rosa, passando pela Vila Forte e outro do Farinheiro ao Itú, passando pela Vista Alegre, anunciando que dali duas semanas ele vai iniciar o rodeio e para quem fosse todas as noites teria um “João Fernandes”, desses de ficar marcado na paleta da memória.
Para o Velho Inácio, palavra dita era palavra cumpri, e assim fez! Um dia antes de começar a festança, ele mandou o capataz ir lá no Povinho do Boqueirão e trazer o vinte nove, cheio de china nova, dessas tipinhas rampeiras, que se refestelam para tudo que é Macho, mas lindaças que nem laranja de amostra, só capa de revista. Mandou, também, buscar as filhas da Constança e outras que nem se sabe da onde vieram, mas eram um amontoado de china nova, tudo flor de percanta, peitudas e reboladeiras, mais perfumadas que cogote de moça véia.

Na madrugadinha, antes dos primeiros raios do dia, já se ouviam o tropel dos cavalos, o alarido da gauchada e algazarra da cachorrada, entre gritos de quero-queros, tudo vinham se achegando com gritos de sapucay, já golpeando uma guapa de canha, para as bandas da estância.

Nunca se viu tanta gente disposta para uma lida de campo. Como era muita gente, o velho mandou o capataz dividir em etapas, eram três ou quatro de um lado, mais três ou quatro do outro, e assim se foi.

A indiada meio louca, dizem que era uma ou duas e a terneirada tava pronta. Um apartava outro mangueava, outro pealava e já vinha o marcador, o castrador, despontava a orelha num sinal e soltava pra um fundo de campo. Em um dia fizeram o que costumavam fazer em três ou quatro.

O velho, louco de esperto, mandou um piá, brochar os bois na carreta e encheu com aquelas “tipa”: umas de saia mais curta, mostrando as canelas, outras de pantalona, coisa que a indiada não conhecia no rincão e dar uma passada pelo meio da tropa para os olhos atentos da peonada, que quase enlouqueciam, já as recebiam abaixo de sapucay.

Bom! Se o serviço já vinha rápido, imagina como ficou?

Naquele dia o serviço foi completo e a única despesa que o velho teve, foi dar bóia e um baileco pra àquela indiada toda. Mas isso custou pouco, por que o gaiteiro ele mandou buscar o seu compadre João Milico, que não queria vir, pois estava sem gaita, mas arrumou uma gaita velha do filho do Nicanor e se botou pra fazenda. Ele toca pouco na verdade, mas bebe que nem gambá e depois de bêbado, qualquer arrasto de espora é música, ainda mais com àquelas tipinhas novas, por ali se refestelando.

Antes de começar o farrancho, João Milico andava por lá meio abichornado, contando para um e para outro como perdeu a gaitinha. Quando o velho Inácio apareceu na porta do rancho com uma gaita branca, novinha em folha, que ele trouxe lá do Maçambará, a alegria do gaiteirinho não dava pra descrever, ainda mais do modo como ele perdeu a gaita velha. Agora ganhou uma gaita novinha, nem acreditava!

- Ali mesmo já atravessou aquela branca no peito, calçou o garrão num baldrame e abriu de toda goela para iniciar a festança. As tipinhas começaram a chegar aos poucos. De longe já se sentia o perfume, para o alvoroço da peonada.

Tinha uma ruiva, cabelo de fogo, que eu acho que era a chefona de todas e dizem às más línguas, que era a irmã do Januário. Essa veio na frente, toda vestida de branco, com os beiços bem vermelho, entrou na porta e se foi pro lado do véio Inácio, desfilando um “islaque” bem apertado, deixando àquelas pernas de “morcilha” a amostra de todos. Logo atrás veio uma peticinha reboladeira, gringa, branca que nem papel de cigarro e já chegou fazendo alvoroço com a peonada. As unhas grandes pareciam unhas de tatu, voltada para baixo e num vermelho feito sangue.

Bom! As outras ou nem falo, quando chegaram, foi o rebuliço da peonada. São as mesmas tipas que outro dia desses estiveram lá pela estância dos Vargas num baile de cola atada e por causa de uma delas, foi que o Anacleto beiço cortado matou de traição o finadinho Ortêncio, irmão do Chola.

Mas bueno, deixa essa estória pra lá. Assim a festança se foi até no outro dia.

Mas de manhã cedo a peonada já estavam, envolta da tropa por mais, três ou quatro dias, até o fim da lida.



Nico completa, hoje, seus 18 anos, chegando à maioridade. Com seu porte físico, barba rala, bigode preto, sempre bem aparado, aos poucos, lembrava em semelhança a seu Romeu. Sempre pronto e interessado em tudo. Nico ganhou o respeito da peonada.

Nssa noite foi chamado por seu Álvaro, capataz que há muito tempo cuida da estância, para chefiar a comitiva que levará uma tropa de gado gordo para as charqueadas, que fica num povoado lá para as bandas da capital. Serão de três à quatro semanas de estrada, conforme o tempo ajudar. A responsabilidade é grande, mas ele já se sente preparado para mais esse desafio. Quem já passou muita coisa, não seria a hora de recuar numa ordem, além é claro, de ganhar o respeito de todos, comprovando tudo o que têm falado dele.



O dia amanheceu lindo, o sol nasceu trazendo vida aos campos e a peonada já está no aparte do gado que irá para a charqueada, deixando tudo mais próximo das casas para amanhã saírem cedinho com a tropa na estrada. O dia todo, foi necessário, para que a tropa fosse apartada.

Depois que fizeram todo o aparte, Nico recolheu-se entre as paredes de um galpão velho fumacento, aos pés de um fogo grande, sorvendo um mate cevado a capricho e, num ar pensativo e ao mesmo tempo preocupado, risca e rabisca no chão batido do galpão. Seu pensamento vai demarcando as distâncias, trajetos, passos, sangas, riachos, o que a tropa precisa fazer para chegar ao destino final. O lugar das pousadas, as aguadas, quem fará o ponteio, a culatra, quantos peões são necessários para tamanho desafio.

A cada gole de mate a preocupação aumenta. Nem a algazarra da peonada contando causos, bravuras, mentiras e pacholeios, não desviava a sua atenção, que visivelmente era percebido por todos. Enquanto cuida de um “costiliar” de chibo píngando graxa nas brasas, busca no lusco-fusco de um candeeiro desenhar mapas na sua imaginação, guardando com muito apreço para os dias que virão.

A noite caiu sorrateira. Após a janta, Nico foi revisar todo o mantimento, que partirá antes da tropa, com o cozinheiro. Revisou suas cordas, laço, rédeas, buçal, peiteira, arreios, pelegos, badana, poncho, chapéu. Tudo pronto. Então atirando o corpo sobre um catre tenta dormir, mas não consegue. Seus pensamentos dão laçaços na cabeça e a ânsia de sair logo para a estrada vem num cochilo, quando alguém já grita:

- Cinco horas, vamos levantar peonada! – Era o cozinheiro já pronto para a partida.

A peonada saltando das camas, enquanto um preparava o mate, os outros na mangueira botando a cavalhada na forma. Uns buçalados já esperavam pela encilha no parapeito do galpão, outros já acompanhavam a madrinheira pastando em frente a estância. Aos poucos foram saindo na direção à tropa que o Bonifácio e mais dois piás, rondaram a noite toda.

E largam, a poeira dos cascos subindo aos céus, desenhando um horizonte enegrecido pela cor da madrugada, mas que logo começava a colorir-se. À frente da tropa, os cavalos de muda vão desenhando mapas a ponta de casco e abrindo caminhos para aquela, que poderia ser a primeira de muitas tropeada do Nico. De vez em quando algum boi refugava, mas de pronto a cachorrada e a peonada ligeira, já fazia juntar-se a tropa.



O primeiro dia foi tranqüilo. A tropa com passos firmes chegava ao destino da primeira pousada, na Estância do Negro Inácio. Lugar de boa aguada, um coxilhão limpo para fazer uma ronda, galpão e mangueira para os cavalos. A ansiedade da noite anterior já não existe mais. A peonada esbaldava-se num costilhar de novilha, assada ali junto ao fogo de chão, um regalo do Velho estancieiro, que apesar da longa idade, churrasqueava junto com a peonada, numa roda de mate, com cantigas de viola, joga de truco, causos e pacholeios da peonada. Começou bem o primeiro dia, que por hora, encerrava-se.

A noite de sono foi tranquila, a manhã nublada, a rotina começava cedo. Durante a noite numa briga, um dos bois machucou à paleta e tinha dificuldades para caminhar, tiveram que deixar por ali mesmo. A comitiva foi saindo estendendo a tropa, lentamente. O tempo que, ontem, viera firme, hoje, começou a mudar. Ergue-se uma barra de nuvens negras, para a banda oriental e logo a tropa pressentiu que se armava um temporal, com um vento forte, vindo de encontro a todos, trazendo muita poeira e escuridão.

A tropa que vinha tranquila, foi ficando impaciente. O gado pressentindo o que estava por vir, berrava e se parav arisca, cuidando as costas de mato.

Nessa hora não há Santo que ajude. A ventania ia se transformando em tormenta e ficava mais violenta. A peonada, sob ponchos e capas, ficavam com medo que a tropa estourasse, mas na perícia da lida lhes ensinaram, de ir contornando de longe, sem apertar, deixando a tropa quieta buscando abrigo um contra os outros.



Após a ventania que varreu os campos, deitando árvores e o macegal, bateu chuva forte, pesada, que mal dava para enxergar à frente, com raios e trovoadas. A tropa toda ali parada no meio do vendaval, com gado berrando, cavalos relinchando, cachorros ganindo, homens com medo, formou-se um quadro de tristeza e preocupação. A água descia das encostas dos cerros formando sangas nos valos. Crateras se abriam, rasgando a terra numa força brutal. Um banhadal formou-se na frente da tropa e ainda tinha a restinga do Passo dos Loucos que certamente estaria com a água fora da caixa.



A chuva deu uma calmada e a tropa foi pegando o rumo novamente.

- Mas o que fazer?

– Prosseguir ou não?

– Será que a sanga dá vau?

– E o tempo perdido no meio do temporal? Essas são algumas perguntas que teimavam em vir à mente do Nico, naquele instante.



Um dia a mais ou a menos para a tropa chegar não seria problema. O problema é o cozinheiro, que saiu na frente, para esperar na estância de D. Maneco, lugar combinado para o pouso da tropa e que fica, mais ou menos, duas léguas depois do passo.

Pouco adiante, cerca de légua e meia, já dava para enxergar a sanga, cheia, com sua correnteza sempre forte, certamente não dará vau para a tropa e seria muito arriscado botar o peito n’água e perder algum boi. Mas ai que a sorte estava do lado deles. Antes de chegar ao Passo, na beira de um capão de mato fechado, estava o cozinheiro com o acampamento montado.

Nego Bira, cozinheiro de anos em tropeadas, quando viu a viração do vento, pressentiu a grandeza da tormenta e que pegaria a tropa de frente, portanto não chegando ao Passo no tempo determinado, então resolveu montar posto por ali mesmo e esperar os companheiros.

Nico sente-se aliviado. Agora é encostar a tropa, montar ronda e descansar. Nada mais haveria para se fazer, naquele dia.



A noite foi tranquila, apesar de muito uivo de sorro, a proximidade do gado, mas o cansaço fez com que todos dormissem bem. A madrugada vinha trazendo os primeiros raios de um dia que começava bonito. A sanga baixou bastante e a tropa vai passar tranquilamente. Os primeiros raios de sol vinham desenhando um céu muito azul, esculpido por grandes nuvens brancas, que pareciam terem sidas lavadas e cardadas pela mão Divina e já os pegava do outro lado do passo, com a tropa tranqueando firme.



Passaram-se duas semanas de poeira e estrada, o cansaço, aos poucos, vinha tomando conta de todos: homens, cavalos, gado, cachorros. O pensamento estava somente na entrega da tropa no local e dia combinado e de voltar à estância para, um bom descanso e, depois as lides do dia a dia da peonada.

À noite passava, a peonada, que vinha cansada ainda ficou tresnoitada, pois não é que sucedeu um “caso” muito estranho com o seu Moreno. Seu Moreno é um “nêgo véio” de seus sessenta e tantos janeiros, tropeiro das antigas, que fez a vida sempre no recals dos cavalos levando tropas por esse mundão afora ou chibiando matungo lá da banda oriental, sempre dormindo campo afora ou pelas tafonas, pois coragem é o que tinha de sobra.

Conta ele que, nessa noite passada, quando fazia o seu quarto de ronda, sob o véu de uma lua cheia, mais clara que um dia, num descampado vazio que costeia um capão de mato fechado de um lado, um coxilhão do outro e mais ao longe as abas de um cerro grande. No coxilhão limpo, um cemitério, com uns quatro ou cinco jazigos meio caído, volteados por uma cerca de pedra, também caída. A gadaria ali, calma, repousando. O único som que se ouvia era do vento norte chiando no macegal e de vez em quando um uivo de algum sorro no topo daquele cerro.

Seu Moreno apeou do zaino na parte baixa da ronda, quase na costa do mato e enquanto fechava um “baio”, molhava a palavra num trago largo de canha. Conta ele, só não sei, até onde é verdade, que sobre a anca do zaino enxergava longe, toda a tropa deitada e ao fundo aquele cemitério. Pois não é que já estava quase na hora de trocar a ronda quando de longe avistou caindo do céu uma bola de fogo, muito vermelha, parecendo esses fogos feitos com lenhas de angico, que vinha rodeando e caiu lá junto aos túmulos. Ele arregalou bem os olhos e ficou ali sem saber o que fazer.

A cachorrada que estavam por ali veio se deitar junto à sombra do zaino. Uns ganiam, outro uivavam, o zaino bufava. Ele como é um taura que não recua, arrumou uma adaga prateada para frente da guaiaca, alçou a perna no zaino e foi ver mais de perto o que estava acontecendo, quando para seu espanto, segundo o seu relato, dentro do cemitério, uma mula, com a cabeça de fogo, corcoveava encima dos túmulos. Ele deu de rédeas e chegou numa disparada ao acampamento acordando todo mundo para ver aquilo. Mas nisso enquanto ele vinha, naquele galopão apressado, diz que a mula desceu num tropel para dentro do mato, deixando pela coxilha um risco de fogo. Foram todos lá, não acharam a tal de mula, mas ainda havia fogo queimando o pafonal do cemitério.

Ele jura de pé junto que tudo é verdade, mas o borrachão de canha que ele pegou cheio estava vazio.

Daí por diante, ninguém mais dormiu naquela noite.

Devido a isso, nesse dia a tropa saiu cedo. Légua e beiço depois, do alto de um coxilhão, avistaram um ranchinho, de pau a pique e santa-fé, na beira de um corredor. Na parte da frente, um pequeno bolicho, onde praticamente, vendia-se cachaça e fumo em rolo. Alguns biscoitos, rapadura e alguns caramelos. Dizem pelas redondezas que já foi saqueado várias vezes por vândalos, ladrões de gado e cavalo, chibeiros da fronteira, esses tipos que andam pelas estâncias, fazendo roubos e arruaças.

Enquanto a tropa encarreirava no corredor, Nico não se conteve de chegar para pegar um borrachão de canha, uns quilos de fumo em rolo para a peonada e para saber das notícias, que correm de boca em boca.

O bolicheiro, um índio velho muito desconfiado, não dava muita conversa. Serviu a canha e sem muitas delongas foi logo fazer outros serviços, dando pouca prosa para os forasteiros. Nico pegou os guardados e foi saindo, arrastando as esporas para o lado da cancela, onde estava o seu cavalo, quando ouviu uma voz suave e doce, de uma flor de menina, falando com a sua mãe no oitão do rancho, estendendo umas roupas no varal. Antes de montar a cavalo, ainda deu mais uma olhada e viu a menina sorrindo, na inocência de seus treze ou quatorze anos. Linda, com um par de olhos grandes e delicados, sorriso claro, com um jeitinho de debochada, que antes de sair correndo para se esconder, ainda lhe atirou um olhar, deixando escorrer sobre suas costas, os longos cabelos negros que desciam até a cintura.

Esta imagem foi para derrubar um pobre peão. Ele alcançou a tropa, juntou-se com aos demais peões sem falar nada. Olhar distante, pensativo, levou consigo aquela imagem, recheada de perguntas, sem respostas.

- Como pode viver uma menina, num lugar tão distante de tudo?

- O que será dela, com tantos ladrões a solta neste rincão?

- Qual o seu nome?

– Quantos anos será que tens?

– Será filha do bolicheiro? Tantas eram as perguntas que ele não se preocupava mais com a tropa, agora o seu pensamento estava lá, naquele bolicho pobre, quase sem nada, na beira de um corredor.



Mais uma semana e a tropa chegou ao seu final. A boiada sendo entregue do jeito que o capataz recomendou. Nada foi perdido: nenhum boi, nenhum cavalo, nenhum cachorro, tudo conforme o planejado, só o seu coração, esse sim, esse parece que estava em pedaços.

Seria hora de repousar, descansar, visitar uma dessas casas de moças. Tomar um bom banho. Aliviar os cavalos, para, na amanhã seguinte começar a volta para a estância.

A noite era agitada no povoado. A peonada aproveitava para visitar as moças da “Siá Filoca”.

O clima no lusco-fusco da casa, era tudo o que um peão de estância procurava. As moçoilas em suas vestes decotadas, pernas roliças e cintura fina, chamavam a atenção e as bebidas e a fumaça dos cigarros, dava um clima para quem gosta da farra. Mas nem isso, nem o cumprimento de um ofício, nada estava chamando a atenção deste que trazia guardado nas retinas, a formosura de uma imagem inocente. O seu corpo estava ali, mas o pensamento estava muito longe, tão distante que estavam sendo os minutos, as horas, os dias mais longos de sua vida.



A manhã amanheceu acinzentada, Nico levantou cedo, chamou a peonada que passaram a noite na farra, encilhou o tostado e começou a sua volta. Num galopão apressado, de estafeta, de mandar bilhete em dia morte, deu o que tinha de seu cavalo, parecia até, que na sua cabeça, não havia outra imagem, a não ser o sorriso daquela menina linda, que o encantara.

Foram dois dia de cavalgada, o tempo que ele levou para chegar novamente ao bolicho. Do alto de um coxilhão avistou o ranchinho e num sorriso, o único em sua volta, esboçava um olhar de alegria e contentamento. Esporeando o tostado, já cansado da esfrega, indo esbarrar quase na porta do bolicho.

Mal atou o cavalo e dirigiu-se ao balcão, como se estivesse com sede, não sede de bebida, porque ele pouco bebia, mas sede de notícias, de curiosidade para saber quem era a menina que outrora estava ali.

Mandou encher um borrachão de canha, pegou um naco de fumo em rolo, um copo de canha pura e sentou-se junto ao baldrame, num banco comprido, onde mais dois índios por ali estavam. Puxou uma xerenga e começou a fechar um pito, lentamente, como quem não tem pressa para mais nada. Começou a indagar de uma “cosa ou outra”. Mas o bolicheiro, de pouca conversa, mal disse o seu nome. Ouviu um ou outro chamá-lo de Tocaio, talvez esse seja o seu apelido. O bolicheiro cuidava-o de canto de olho e às vezes calava-se, em silêncio, como quem queira escutar alguma coisa vindo da parte do fundo do bolicho.

As horas iam passando, a peonada ia saindo. Pegavam o rumo da estância e nada do Nico mexer-se para ir embora. Saí pra fora, entra pra dentro, dá uma olhada no corredor, como, quem esteja procurando alguém ou alguma coisa. Senta-se. Levanta-se. Mas não tem coragem de perguntar da menina que ele viu, ali no oitão do rancho.

Passou algum tempo, então achou melhor ir embora. Sai devagarito, arrastando as chilenas e alça a perna no pingo, sentindo um aperto no coração. Triste, chateado, cavalga um pouco e olha para traz, na busca de alguém que ele nem sabe quem é, até sumir-se na solidão dos campos, deixando ao longe o velho bolicho e alguém que não consegue tirar do pensamento.



Esses estão sendo os dias mais tristes de sua vida. Volta para a estância e tantas perguntas atormentam lhe as ideias:

- Porque se encantou por uma menina que nem conhece?

- Porque pensar tanto em alguém que nem sabe o nome?

– Será que um dia vai vê-la, novamente?

– Se lá há tantos ladrões, bandidos que já saquearem o bolicho outras vezes, será que não irão levá-la? Perguntas, perguntas e mais perguntas. Só isso lhe vem à cabeça, sem repostas.



Ao chegar na estância, depois de um longo tempo longe de sua Mãe e de dona Ruth, Nico mata a saudade de todos. Fica sabendo dos acontecimentos em que esteve longe, as novidades vindas da capital, o nascimentos de alguns bezerros, mas nada disso faz ele disfarçar e até a peonada entranha o jeito dele. Sempre quieto, pensativo, olhar distante. De manhã, à tarde, à noite, seu pensamento anda vagando longe.

Faz uma semana que não sai para o campo, para rondas e pastoreios. Recolhido dentro de si, faz das paredes toscas de um galpão velho fumacento, seu confessionário. Escreve poemas pelo chão batido deste santuário. Tenta tirar notas de uma viola desafinada. Solfeja umas coplitas, no intuito de fazer cantiga, com as coisas guardadas num rancho coração.

Nas tardesitas, enquanto o sol estende seu poncho de carnal vermelho, esculpindo imagens, nas nuvens sangradas, ele senta-se num travessão de cancela e fica bombeando o horizonte, até onde o olhar se perde e rascunha dilemas pela cabeça dos palanques. Cavalga seu olhar, pela estradinha de chão batido, indo de encontro da linda, que num gesto delicado, lhe atirou um olhar, quais os tentos de um laço, lhe prendendo o coração.

- O que fazer? – Tantos são, os planos. Tantos são, os sonhos.

- Contar para alguém o que estava acontecendo?

– Mas para quem?

– Quem entenderia o que ele estava sentido?

– Contar que viu uma menina que o encantou, mas que não sabe quem é? Se vai vê-la novamente!

– Que tem doze ou treze anos, uma menina, quase uma criança?

– Será que alguém entenderá o seu sofrimento? Talvez!



Os momentos de tristeza são tantos, que nem a estória da assombração que apareceu lá na sanga da tia Joana, mudou o rumo do seu pensamento. Talvez a verdade sobre essa história da assombração nunca virá à tona, mas eu sei o que aconteceu. E vou contá-los, para acabar com essas coisas de outro mundo.

“Numa tarde dessas, o Negro Murcia, que não está mais morando na estância, pois foi viver numa casinha lá na costa de restinga, próximo da Tia Aurora, vinha passando ali pela sanga, onde as mulheres lavam a roupa, entre as pedras de uma água muito alva e corrente, de poço fundo, e resolveu tomar um banho para espantar o calor, antes de rumar para a casa. O Negro é preto que nem carvão e magro que nem taquara, parece um desses, pau de fumo, que a gente enrola fumo em corda. Pois é, o coitado, não vendo ninguém, tirou toda a roupa e deixou numa pedra, fora da sanga para não molhar. Atirou-se na água, parecia um muçum, nadava para lá, nadava para cá, mergulhava, tudo em paz. Pois não é que naquele instante passava por ali, voltando de uma roça, o Zé do Ivo e o Rui da Dorvala, dois sujeitos muito espertos e resolveram aprontar para o coitado do Murcia, escondendo as roupas dele numas macegas logo adiante e ficaram lá olhando a felicidade do negro naquela água geladinha. Nesse dia, duas serviçais aqui da estância, resolveram ir lá lavar uns lençóis brancos, que a dona Ruth havia comprado e tinha que tirar aquela goma. O negro vendo que as duas se aproximavam escondeu-se numas pedras, pois de onde ele estava não avistava as roupas que havia deixado na beira da sanga. As serviçais lavaram os lençóis e deixaram no quaro numa grama verde, um pouco mais acima da sanga e foram se molhar na água corrente num local mais raso, quando viram sair de dentro do mato um vulto preto, enrolado num lençol branco, correndo coxilha acima. Elas não pensaram duas vezes, era uma assombração, saíram em disparada no rumo da estância, gritando que nem loucas, assustando toda a peonada, que bateram a mataria toda e não encontraram o lençol novinho de dona Ruth” - e até hoje, a história dessa assombração ronda a sanga da Tia Juana.



Nico não quis sabe de nada, não quis nem acompanhar a peonada num João Fernandes na casa do véio Piola, lá nas barrancas do Itu, na Picada “dos Loco”. Dizem quando o véio faz baile nem a lua aparece. E isso eu acho que é verdade. Pois essa noite era um breu de não se enxergar um palmo diante dos olhos. A indiada meteu-se campo à dentro e não sei como, mas chegaram ao farrancho.

Farrancho na casa do Véio Piola é festança tranquila, antes de começar o baile o véio, bem pilchado, de tirador, chapéu e espora, um mango na mão esquerda e uma solingen na cintura, ele sobe num banco de três pés, e faz um discurso pedindo respeito. Aparta as prendas para um lado e a peonada para o outro, depois manda o gaiteiro começar o baile e a peonada pode tirar as prendas, mas dançar bem separados. Dançam, bebem, gritam. Pacholeios e algazarra para a felicidade de todos. Mas nesse dia veio um comentário, entre cochichos e olhares avistando pela janela, lá fora, encostado num mouro negro, fechando um tucho, metido num baeta vermelha, o negro Bonifácio.

O Negro Bonifácio, pra quem não conhece, é afamado no rincão pela valentia. Uns dizem que o negro é castelhano, outros dizem que não é castelhano, que ele apenas viveu no lado oriental por anos, depois de matar uns três ou quatro numa peleia. Isso eu não sei. Só sei que o negro é de assustar, é de fazer criança dormir sem ter sono.

Corpo forte, quase dois metros de altura, acostumado a bolear touro num fundo de estância, bigode grande emendado à costeleta e um par de olhos negros sombreados por duas sobrancelhas que mais parecem dois mandorovás. Essa era a estampa do negro.

Fechou um baio, acendeu, deu uma longa tragueada, tomou o último gole de um borrachão de canha, deu cuspida numa macega e encaminhou-se lentamente rumo à porta do rancho, arrastando um par de esporas e a tala de um mango que trazia pendurado no cabo de uma adaga, cabo de ouro e prata, mais cortadeira que língua de sogra. Um chapéu preto de abas largas, bem na nuca e o barbicacho de prata enganchado na parte de baixo do beiço. Uma bombacha de dois panos dessas de varrer o salão. E um poncho negro atirado pra traz, deixando amostra aquele avesso de aurora.

Chegou, pagou entrada e entrou. Não falou nada. Encostou-se num canto do rancho perto da copa e ficou olhando o baile. De vez em quando tirava uma tragueda e tapava de fumaça. O gaiteiro veio, o João Milico, atracando vaneira, uma no rastro da outra, faceiro com a gaita nova.

Depois de uma hora e tanto naquele tranco, ele fez um floreio e deu uma mudada, atracou uma rancheira dessas galopeada e a sala encheu. Nisso passa pelo negro uma tipinha filha da Nicácia se reboleando que nem minhoca em terra quente. O negro deu uma balançada no corpanzil, uma olhada de cima a baixo, pegou a tipinha na passada e saiu atrotesito no embalo daquela rancheira.

A coisa ia tranqüila até a terceira volta. Por onde o negro passava abriam valetas de dentaços deespora. Numa cruzada ele se empolgou abriu demais a passada e enganchou o vestido de uma “veia” e foi rasgando de cima a baixo, trazendo chita, com couro de canela, com pelo e tudo. A “veia”, de pronto, abriu o peito e botou-lhe a boca. O negro, desaforado e flor de bagaceira, parou de sopetão, empurrou a tipinha que já adormecia no peito do bagual e disse num portunhol arrastado, mas para todo o mundo ouvir:

- Acho que enganchei minhas espuelas na cola duma guecha que ficou relinchando -

Mas para quê? Aquilo foi que nem cutucar marimbondo. O Chirú véio que estava com ela, um castelhano de cara enferruscada, a barba mal feita, dessas tosqueada com tesoura de esquila, de pronto arrancou uma garrucha de dois canos, das que se carrega pela boca e meteu de baixo para cima, berrando os dois canos ao mesmo tempo, que cruzou fazendo estrago no chapéu de negro, abrindo um rombo no santa-fé do rancho, que começou pegar fogo.

O negro deu uns dois passos para traz e arrancou da adaga, abrindo um clarão na sala. Já lhe saltam mais quatro ou cinco: de mango, facão, adaga e até a tranca de uma porta, veio abrindo picada. Mas o índio não era muito assustado. Com o poncho foi tirando os estouros, talhos e pontaços, recuando na direção do gaiteiro. O gaiteiro vendo o mundo vir a baixo, largou-se num vão que tinha entre o baldrame e a costaneira, que garanto, que nem esses cuscos de madame passava, mas ele passou, mas teve que deixar a gaita. O negro embaixo do mau tempo, com o poncho em tira, viu alumiar o fio de um aço branco, um marca formiga, que vinha sedento por sangue, não teve outra saída. Quando o pontudo desceu de cima para baixo ele meteu aquela belezura de gaita que se apartou em duas, ficando com as ilheiras na mão e no mesmo impulso se largou por uma janela saltando lá fora, caindo em pé, bandeou-se noite adentro na direção do Passo. Nunca mais ninguém o viu. Só se ouve falar na tristeza do João Milico, que perdera duas gaitas, isso é demais para um gaiteiro, que é famoso no rincão. Famoso pelo azar do coitado. Do negro nunca mais se ouviu notícias.



Nem essa história que a peonada trouxe, recheada de pacholeios, não mudou o jeito do Nico. Nem as noites quentes de luar, enquanto via a indiada sair para caçar tatu. Nem a luz coada de lua cristalina, que desfiava imagens por entre os braços da figueira, lhe chamavam atenção. No seu silêncio, ele desfiava de uma coplita campeira, dessas que sai do fundo da alma com gosto de solidão, com a dor que teimava arder dentro do peito, assistido por uma platéia de estrelas, onde, de quando em vez, uma delas se desgarrava indo levar um pedido dele, a quem estava distante, quem sabe olhando para o mesmo céu e fazendo o mesmo pedido.



Os dias pareciam sempre os mesmos e cada vez mais tristes. Tudo era sem graça: o trabalho, a lida, as domingueiras, as carreiradas, as modas de viola. Tudo. Tudo perdeu o sentido para ele. E seus momentos cantarola cevando um mate.

A manhã se espreguiça com cara de sono no fio do horizonte,

Desde “três-ontonte” que a chuva caía sem trégua pra gente,

Mmas hoje parece que o sol se enforquilha na anca do dia

E a alma vazia recorre os sentidos que andavam ausentes.



A cuia descansa guardando os segredos que eram para ela

e num vão da janela, réstias se cruzam com jeito de vida,

esporas reclamam soltando nas pedras e poças de água,

todas as mágoas desses três dias distantes da lida.



É triste parceiro para um índio campeiro ficar no galpão,

nem o chimarrão aquecem os sonhos que são estradeiros.

Só a voz do silêncio repousa inquieta na alma da gente

e o campo pressente que a lida chama, depois do aguaceiro.



A cavalhada de pelo encharcado da chuva que veio...

estranha os arreios, dos dias de forlga, boleados na graxa.

É linda a cantiga do vento assoviando na boca do mato

e feio o retrato da sanga bufando ainda fora da caixa.



No verde estirado há cheiro de campo e da flor dos trevais

e pelos banhadais, mil gritos de vida, alerta o campeiro,

quem faz o sustento no suor do cavalo, precisam de espaço,

juntar os pedaços que o tempo espalhou depois do aguaceiro. -



Depois desses dias de chuva, cansado, sem ter nada para fazer, a saudade machucando, ele tomou coragem, encilhou um tostado bico branco, boleado na graxa, pingo guardado para os pacholeios de domingo, vestiu uma pilcha domingueira: um chapéu preto de aba caída sobre o olhar vazio e triste e botou o pingo na estrada, cheio de esperança de encontrar a menina dos seus sonhos.



As noites lhe pegavam batendo estribo. Às vezes fazia pousada em alguma estância, para dar descanso ao cavalo e voltava para a estrada, novamente.

O Calor do verão ia tomando conta das coxilhas sapecadas pelo sol. A poeira consumindo as distância, de tristeza e cansaço. Depois de dias, finalmente ao longe, vê a silhueta de um ranchincho adormecido nas ressolanas desse verão. Num tropel desesperado aproxima-se do rancho, mas logo percebe a inércia do tempo que parou por ali, tudo quieto, tudo parado, tudo tapera. Portas e janelas fechadas ao mundo, num silêncio de velório. Bate palmas. Grita. Dá Oh! de casa e nada. Bate na porta do bolicho, anda de lá para cá, daqui para lá, e nada. Não há um cachorro. Um bicho, nada, somente tristeza e solidão. Arromba a porta do fundo e não há mais nada no pequeno rancho.

O que fazer?

Tomar o rumo, de volta a estância novamente?

Sair a procura de alguém?

Andar e andar até encontrá-la?

Dica por hora ali, no silencio, solito, pensativo. Resolve voltar para a estância.



Pouco mais de légua, voltando para estância, ele encontra um caseiro de uma outra estância ali próxima e pergunta-lhe o que aconteceu para o bolicho estar tapera e teve a resposta que tanto o afligia nessas últimas semanas.

O bolicho havia sido roubado, novamente. O bolicheiro pegou a família e botou o pé na estrada, não se sabe para onde. Alguns dizem eu foi para a capital, outros dizem que fora pegar o navio para irem pra o outro lado do oceano.

Esses foram os dias mais difíceis para ele. Voltando para a estância a vida tornava-se monótona, sem graça. Não tinha vontade de fazer mais nada: Domas, cordas, remendar um laço, causos, peleias, nada mais lhe chamava atenção. A peonada da estância já nem o procuravam mais, pois suas palavras eram amargas, cheias de ódio ou de tristeza.

Uns achavam que era por causa do Pai, outros, que era pela doença da dona Ruth. Tem os que achavam que era por causa de algum rabo de saia, que ele conheceu por essas carreiradas ou então, alguma daquelas lá do povo, no dia da entrega da tropa.

Mas, no fundo, só ele sabia do seu sentimento. O aperto que vinha do coração, machucado pelas lembranças daquela menina, que brotava do seu peito como água cristalina, que saia de uma vertente entre as pedras de um rochedo nunca tocado pela mão humana.

Estava chegando à hora de tomar uma decisão! E assim o faz. Pediu as contas ao capataz da estância, pegou as poucas coisas que tinha, meteu numa mala de garupa, encilhou um cavalo e se botou estrada afora. Saiu de estância em estância, tentando encontrar o caminho que possa o levar até a sua desconhecida amada.



Numa dessas estâncias encosta-se de peão, para fazer a doma de uma potrada xucra que havia por ali.

Era a época das esquilas. De longe já se ouvia a comparsa das tesouras, o theque-theque milongueado dos martelos, que pareciam cantilenas a adentrar na alma. A estância tinha recebido gente de toda parte. Uns para trabalhar no garreio, na tosa, ensacamento das lãs, na dosa das ovelhas, que não eram poucas e todos por ali se encontravam entretidos nos seus afazeres.

Ao anoitecer, após um dia inteiro de esquila, a peonada ia se ajuntando pelo galpão, aos pés de um fogo de chão, para as rodas de mate, canha, causos e cantorias. Nico não se contendo de tanta curiosidade, volta e meia sentava-se ao lado de um, ao lado de outro, sempre perguntando, indagando, tentando descobrir alguma coisa, sobre a família do bolicheiro lá do rincão.

Pois foi, entre uma prosa e outra, que ele encontrara o seu Feliciano, com o peso de seus setenta e tantos anos, vivendo praticamente de estância em estância fazendo esquila. Certamente que conhecia a todos e todas as estâncias da redondeza e até algumas lá do lado oriental, onde tinha bons amigos castelhanos. Pois seu Feliciano chegou ontem de uma estância lá da costa do Uruguai, onde havia trabalhado na esquila, juntamente com o Tocaio, bolicheiro lá do rincão, o qual ele já conhecia há muitos anos.

Nico não contem a curiosidade e lhe indagava de tudo. A euforia do moço e um tanto desconhecido para o velho desconfiado, faz com que ele, seu Feliciano, prontamente mudasse de prosa, vindo falar com o Capataz sobre o serviço que haveria de fazer no dia seguinte. Nico percebendo isso, serviu um mete, saiu para fora para fechar um pito e ficou encostado a uma carreta de toldo, olhando o horizonte, pensativo. Depois de algum tempo voltou para o galpão e sentou-se ao lado do seu Feliciano e não contendo a curiosidade, puxou a prosa já perguntando-lhe, se o velho, conhecia a tal menina, a qual ele tanto interessara.

Após horas e horas de prosa, a peonada já atirada pelos catres, ali mesmo junto ao fogo, para repouso, Nico ficou sabendo de tudo. O que havia acontecido, mas ainda estava longe de encontrar quem ele tanto procurava.

Seu Feliciano, devido à longa idade, andava meio esquecido, mas ainda lembrava-se da família do bolicheiro.

- Ele, a esposa, um menino ainda de colo e uma menina já mocinha, com a chegada dos “bandido” no bolicho, sairam campo afora, vindo pegar carona numa comitiva que levava uma tropa, “pra charqueada lá pras banda” da capital. Por lá não conseguiu “trabaio”, foi pr’uma estância lá na costa do Uruguai, sozinho, deixou a “famía” na casa “d’uns parente”. – Lembrava-se o velho, contando enquanto fecha um baio, lentamente.



Isso não era muito. Mas para quem não tinha nada, já seria o bastante. Nico ficou satisfeito e foi recolher-se pensativo:

“Quem sabe nos próximos dias, seu Feliciano não se lembre de mais alguma coisa ou algum outro peão não conheça o bolicheiro e sua família – deitou-se ele, num sorriso largo.



A noite, lá fora, encontrava-se linda: um céu estrelado, uma lua redonda clareando os campos e descendo coada entre os galhos do arvoredo, onde a passarada adormecoa em silêncio. Recolhido à seu catre, tenta dormir mas não consegue, as ideias corcoveiam no pensamento e o silêncio lhe trazia lembranças castigadas de encanto e nostalgia. Lá ao longe a cantiga do vento chegava suave, adentrando as frestas do galpão e um gritar de quero-quero alardeava o campo quebrando a rotina dos ponteiros, que tictaqueavam como badalos a chamar por alguém. Ia-se a noite. Ia-se o sono.



Assim passaram-se os dias, as semanas e os meses. Nico finalizou a doma da potrada. As esquilas já terminaram há dias. A peonada já partiram deixando a estância quase vazia. Chegou a sua hora de partir. Dom Martinho encheu-o de propostas, mas nada ou ninguém mudaria o pensamento dele nesses dias, ainda mais, depois de saber o rumo de quem ele tanto procura.



A entrada do outono trazia prenúncio de um inverno brabo. Garoa, frio, chuva. Tudo tornavam os dias mais difíceis e mais curtos. A estrada era longa. O sentimento dele maior ainda. A dor da distância fazia com que o tempo parecia ficar mais frio, ainda.

“Por onde andarão os olhos da linda que amei com carinho, quem sabe a caminho aqui do meu mate por este aguaceiro, de traz da vidraça a chuva retrata àquela princesa que tem a beleza de flor da campina e jeito trigueiro. A noite se achega na mesma cadência dessa chuva fria, já fazem três dias de agosto sebruno com jeito de enchente, o vento assovia, gemidos estranhos, uivando na quincha e o zaino relincha, parece um campeiro, proseando com a gente”,



O tempo parecia passar de pressa. Os meses corriam como a água que desliza de uma cachoeira, sem parar. As coisas a cada dia ficavam mais difíceis. Veio mais um verão. Outra primavera. Outono novamente. E mais um inverno. As geadas branqueavam os pastos e iam desenhando os campos e o vidro das águas. O vento frio cortava, como lâmina afiada, a alma do vivente. O tal de minuano fazia cantigas com versos tristes e mal acabados, assobiando na baeta de um poncho, de carnal molhado de saudade e tristeza. Somente haviam: sonhos e saudades, no corpo de um peão deserdado do amor e desgarrado do pago.

Já sem dinheiro, pouca roupa, a esperança em farrapos e os olhos cansados de procurar a esmo, a paixão louca que lhe atormentava dia e noite, ia machucando o peito de um peão solitário. A tristeza dos últimos dias, quebrava-lhe o vidro dos olhos. A falta de trabalho, o lugar desconhecido, o cansaço e o estado do seu cavalo, tudo era motivo de voltar, de buscar um novo rumo, um aconchego para a sua vida. Voltar para a estância, onde sua Mãe e dona Ruth, certamente, lhe esperavam ansiosas, de braços abertos, pela volta do filho amado? Ou seguir a procura de algo que nem sabia mais se existia, e se existia, a onde encontrar?



Na manhãzinha, a garoa deu uma trégua, depois de dias de muito frio, que tomava conta desse povoado, margeado por um grande rio, com águas profundas, bem azuis e onde espelhava-se um céu azulado.

As grandes canoas chegavam carregadas de peixes, que eram vendidos numa feira, ali mesmo na costa do rio e numa pracinha um pouco mais distante, mas não muito longe, dez ou vinte minutos, de a pé.

Há pouco, Nico viu a chegada dos pescadores. Conversou com algumas pessoas que por ali estavam. Mas nada conseguiu. Nem informação, nem trabalho. Nada. Então, pensa estar chegando a hora de voltar para a estrada e rumar à velha querência que há muito tempo deixou.

- Mas para onde ir? - Tomou o rumo que o seu coração mandara. Sairia à toa.

Após um dia longo de cavalgada, seu cavalo que sempre fora tratado a milho e galpão, estava fraco, magro e cansado. Com o lombo, pisado de tempo e arreio, mancando e com o casco de uma das mãos sangrando, Nico resolveu dar um descanso para o seu fiel companheiro.

De longe avistou um ranchincho, na costa de um capão de mato onde corria a água de uma restinga, de pedras e areia. Uma água muito alva quase transparente, límpida e clara, onde se enxergava os cardumes de lambaris nadando no embalo da correnteza.

Era uma casinha branca no pé da serra, rodeada de jasmineiro e orquídea em flor, na frente um João Barreiro fez sua casa, talvez porque também sofra da mesma dor! - Pensou ele,

Um galpão e mangueira, para vinte ou trinta animais e um açude mais à frente, feito com as águas da chuva, que foram muitas nesse inverno longo. Na parte de traz do rancho, uma chacrinha, com restevas de milho e mandioca, começando a ser preparada para futuras plantações.

Nico não se fez de rogado. De pronto chegou e pediu pousada. Pediu um lugar para cuidar de seu cavalo.

O dono da casa, um senhor simples, trabalhador, trazia as marcas do serviço bruto em suas mãos e nas roupas que trajava. Mesmo não o conhecendo, prontamente deu-lhe abrigo. No galpão, fez-se um fogo de chão. Soltou o cavalo num potreiro de pasto alto no fundo da casa. Estendeu o poncho, ainda molhado, sobre um esteio do rancho, que fazia sustento a um varal de salames feitos com capricho e sabedoria. Mal tinha se ajeitado e já recebera uma cuia de mate quente, espumento feito com todo gosto, desses de dizer “bem vindo”, aquele desgarrado que por ali se achegava.

Em pouco tempo, Nico contou-lhe parte de sua estória. Contou-lhe que estava de volta para a estância a onde foi criado. Contou-lhe, ainda, das dificuldades que encontrou no povo, para um homem que sempre viveu num fundo de estância. Falou de domas, tropeadas, rodeios e marcações. Só não falou o que realmente lhe interessava.

Por longas horas, matearam ali pelo galpão. Nico e seu Adão pareciam que já se conheciam há muito tempo. Seu Adão, na sua simplicidade, contou-lhe do trabalho que passava por ali, pois o que tinha era pouco para ele sustentar a sua família: - de mulher, três filhos e ainda uma sobrinha, já mocinha, filha de seu irmão, que ficara com eles, até eles encontrem trabalho e morada em alguma estância mundo afora.

Nesse dia as horas passaram num galope. Chegou à noite, seu Adão levou um prato de comida, uns forros de cama e um poncho seco, para que ele fizesse uma cama ali mesmo, no galpão.

Após o casal recolher-se, ele fez a sua cama, mas por entre as frestas da parede grosseira e mal acabada, ouviam-se vozes que vinham de dentro de casa, suaves cochichos, risos, brincadeiras, como se alguém estivesse lhe espiando.

Foi à noite mais curta dos últimos anos. Ao amanhecer, Nico foi buscar seu cavalo, mas logo viu que não daria para encilhar. O animal estava mancando muito e de lombo pisado. Encilhar o cavalo naquele estado seria um crime com quem tanto lhe ajudara. Voltando ao galpão, desacorsuado com tanta coisa ruim que vinha acontecendo com ele. O que faltava para piorar a situação?

Seu Adão vendo as dificuldades do rapaz convidou-o para ficar mais alguns dias, até o animal se restabelecer.

- Depois que o animal ficar bom, tu alça a perna, meu rapaz – disse ele.

Nico não ficou muito conforme. Mas teve que concordar.

Naquela manhã, seu Adão precisava concertar umas cercas que ficava na divisa com a propriedade de um fazendeiro, lá na costa da restinga.

- Dizem por ai, as más línguas, que são os maiores ladrões de gado do rincão é o que todo mundo sabe, até a milicada, mas que ninguém faz nada, porque ele tem as costas largas com o seu delegado e que não podem prender o infeliz porque ele teve na revolução. – Não sei se é verdade! – Exclamou seu Adão.

Nico e seu Adão ficaram bons amigos. De pronto viu-se que aquele rapaz de pouca conversa, de olhos tristes e sofridos, acima de tudo era um trabalhador. Ajeitaram a cerca, construiram uma parte nova, com palanque, trama, arame farpado.

Voltaram para casa já virado do meio dia. Ao chegarem, seu Adão convidou-o para entrarem e almoçarem juntos com a família dele. A princípio o rapaz renegou, mas após sua insistência, ele acabou concordando. Dona Vera foi comunicada que colocasse mais um prato na mesa, que o rapaz iria almoçar com eles, mas antes do almoço fizesse um mate “ajujado” de cidró e puejo e levasse no galpão.

Dona Vera fez o mate. Chamou por Clarice e mandou que levasse ao galpão, onde os dois esperavam ansiosamente, para aquecer a alma e espantar o cansaço.

Sentado de costas para a porta sobre um carnal de pelego, de cabeça baixa, colocando lenha no fogo, viu adentrar no galpão o vulto de uma moça, que passou por ele e foi de encontro a seu tio que estava sentado mais ao fundo do galpão, onde lhe dera a cuia de mate.

Ao levantar a cabeça, viu parada em sua frente, a pessoa que ele mais procurou nos últimos três anos. Da tristeza ao sorriso, da esperança a realidade, da busca o encontro. Tudo tem um tempo, tudo tem um dia, tudo tem um hora marcada. E ali estava ela: linda, meiga, os mesmos cabelos negros, mais longos, mais lindos. A menina cresceu, uma moça se tornara, mas o mesmo sorriso maroto, os mesmos olhos grandes, o mesmo jeito delicado. Encabulada, ela deixou resvalar um “bom dia”, meio sem convicção, o qual foi recebido com muita alegria, por ele, para o espanto de seu Adão.

Foi o mate mais gostoso tomando ao longo de seus vinte e dois anos. Na cuia ficou o cheiro do perfume dela. Um cheiro doce, de margarida, de açucena, de flor do campo, de um jardim inteiro. Certamente seria o mesmo cheiro que estaria escondido sob aqueles longos cabelos negros.

Após muitas cuias de mate, tomados em silêncio por parte dele e de desconfiança por parte de seu Adão, ambos adentraram na cozinha de pedras, que ficava na parte de traz da casa, onde uma grande mesa, bem no centro, já tinha as crianças sentadas à sua volta, deixando a cabeceira livre para o dono da casa. Ao lado oposto onde Clarice estava sentada, havia uma cadeira na espera dele, para o primeiro almoço feliz da sua vida.

Antes de servir-se ele olhou bem nos olhos da menina que sentava à sua frente, ainda não acreditando no que estava acontecendo. Ela, coitadinha, envergonhada, baixou a cabeça deixando rosada aquela pele macia de seu rosto lindo.

Comeu. Mas não perguntem o gosto da comida? – O que comeu? - O que conversaram? Nada disso ele sabe. Espantado com a formosura daquela que ali estava à sua frente.

Nunca tinha visto coisa igual. Nem nas estâncias, nem nos povoados, nem nas casas das moças da vida. Não, em lugar algum se viu alguém igual a ela.

Tantas coisas passaram na sua cabeça, naqueles poucos instantes que estivera sentado à mesa:

– Será que o mundo é pequeno?

– Será que são coisas do destino?

– Será que é ela, ou apenas alguém parecida?

– quantas e quantas perguntas vinham ao mesmo tempo.

Meio sem jeito pediu licença e voltou para o galpão. A cada passo que dava, parecia que o chão se abria. Tudo aquilo que estava passando era um sonho, não poderia ser verdade.

Sentou-se a beira do fogo. Fechou um palheiro. Encostou a cambona junto às brasas. Foi fazer um mate para baixar a bóia; que não o fizera bem. Na ideia passavam tropas e tropas de pensamentos.

Após o almoço, como é de costume, seu Adão e a família se recolheram para a sesta.



À tarde cinzenta trazia uma garoa fina que se prolongou pelo dia todo. Ele no galpão estava inquieto, arrumou umas cordas que estavam puindo. Fez uma arapuca para pegar umas pacas, que vira na beira da restinga. Acendeu um pucho, que se terminava no canto da boca e tirou uma longa tragada, sempre pensativo.

Volta e meia ia até a porta do galpão, como se quisesse sair para falar com alguém, mas faltava coragem.

Tantas perguntas continuavam rondando o seu pensamento:

– o que faria naquele momento?

– O seu Adão, como reagiria se ele contasse o que de fato escondera?

– E ela, o que fazia ali?

– Será que ainda se lembrava dele?

– Perguntas, perguntas e mais perguntas. Todas elas sem uma única resposta.

No meio da tarde, seu Adão foi ao galpão, pegou um balaio vazio e foi até um jirau que fica um pouco mais atrás no terreiro, trouxe-o cheio de espigas de milho, para descascar e debulhar. A tarde continuava nojenta, tempo fechado de garoa.

Descascou um, depois outro, depois mais um terceiro balaio de milho. Então apareceu Clarice com duas crianças pela mão.

- Viemos ajudar a debulhar milho – Disse-a, com uma voz doce e delicada.

Sentou-se num banco de três pés, que se encontrava de frente para ele, pegou uma caixa feita de couro cru com madeira, colocou-a entre as pernas e começou a debulhar milho com uma destreza, muito pouco visto, como alguém acostumada a fazer aquilo normalmente.

O silêncio tomou conta do galpão, dava-se até para ouvir as batidas de um coração potro, que teimava em gavionar, querendo sair campo afora, buscando a liberdade de quem vive aprisionado numa louca paixão, dessas que amarga à boca, sufoca a goela, distante do grande amor.

Seu Adão havia ido levar bóia para os bichos e eles ali, a sós. Está certo que haviab duas crianças junto a ela, mas as crianças jamais perceberiam que aquele momento era o prenúncio de uma história que parecia estar acabando, mas na verdade estava recém começando.

Clarice deixou o cabelo cair sobre seu rosto fino e meigo de onde disfarçadamente, por entre os fios das madeixas, fitava com olhos vazios a beleza do homem que estava à sua frente.

Nico, meio perturbado com aquela inesperada presença, não sabia se puxava conversa com ela ou apenas a admirava, pela sua beleza desigual.

Foram os momentos mais silentes, entre dois seres. Tão pertos, mas tão distantes.

A tardinha chegou logo. O tempo continuava enferruscado. Dona Vera fez um mate com todo capricho e trouxe ao galpão.

Ali encontrou todos trabalhando. Alguns cestos de milho pela boca, pronto, debulhado. Todos reunidos pareciam uma só família. Nico já havia falado um pouco de sua vida. Clarice contou de sua, também. Seu Adão fez algumas argumentações sobre os prejuízos daquele inverno brabo. Todos reunidos pareciam que já se conheciam há muito tempo.

Veio à noite, dona Vera foi arrumar a janta. Os demais continuavam ali no galpão, na volta do fogo de chão. Um lampião aceso num canto, deixava o ar com jeito de romance e nostalgia. No lusco-fusco do candeeiro dava para ver os contornos de um perfeito corpo de mulher, que se desenhava sob um vestido longo, de chita e que colocava sobre os cabelos, um bem feito manto negro, feito de crochê, parecendo uma dessas Santas que vivem nos altares enfeitando as salas das estâncias e os sonhos da gente.

Após a janta todos se recolheram para seus aposentos. Nico, no galpão, não acreditava no que estava acontecendo. Depois de dias, meses, anos à procura dela. Foi encontrar logo ali, onde menos esperava, junto com aquelas pessoas, tão simples e tão boas para ele.

Assim passou-se aquela noite longa. Veio um dia, mais outro. Uma semana. Depois outra. E mais outra. Nico por diversas vezes ficou a sós com sua amada, sem nada a lhe dizer. Sempre respeitando a moça e a família que tão bem o acolheu. Seu coração muitas vezes teimava em disparar, seus olhos teimavam em procurar os olhos dela, mesmo sabendo que seu Adão poderia desconfiar. Mas tê-la ali, junto a ele, sem nada poder fazer era um tormento, que estava difícil de segurar. Então, talvez, fosse chagado a hora de partir.



Seu cavalo havia melhorado. Os dias que ali ficara, trabalhou para ajudar nas despesas daquela família. Se partisse hoje mesmo, nada ficaria devendo, a não ser a sua amizade, o carinho e a lembrança que levaria para a vida toda, daquela família tão amiga.

Chegou o grande dia, sexta-feira. Nico dissera que no sábado, ao clarear do dia pegaria seu rumo. Voltaria para a estância onde foi criado, onde havia deixado sua Mãe e parte do seu passado.

Clarice já não conseguia mais esconder o interesse por ele. Seu Adão e dona Vera, já estavam contrariados com o jeito da sobrinha. Pois ela estava ali por algum tempo e não era certo se interessar por alguém, longe dos Pais, que a recomendaram com tanto zelo e estima. Não era certo, ela uma moça de família e ele apenas um desconhecido que ali apareceu.

Naquela tarde, ele foi na restinga dar água ao seu cavalo, após as lidas do dia. Quando já se preparava para voltar para a casa, ouviu aquele choro soluçado que se aproximou dele, num repente e abraçou-o, com força, com paixão, com sofrimento e dor.

Ele sentiu seu corpo estremecer. O calor da pele dela, o cheiro, a maciez de seus cabelos, tudo estavam ali em suas mãos. Abraçados. Ela chorando. Fazendo juras de amor. Implorando para que ele ficasse.

“Foram às imagens mais lindas que um par de olhos já viu. Duas poças de ternura se transformar em rio, em cada gota caída, brotavam pétalas de flor, perfumando o lençol da grama, com o cheiro doce do amor”.

Calmamente ele foi acalmando-a. Pediu que parasse de chorar. Com carinho, limpou as lágrimas que escorriam dos olhos dela. Sentindo-se protegida entre os braços rudes daquele peão, que ela nunca esqueceu ao longo desses anos, então, começou a contar a sua vida, a sua história.

Contou de seus Pais. Do que aconteceu, para eles irem embora do lugar de onde moravam, onde a viu, pela primeira e única vez.

Contou das vezes que foi para o corredor, esperar a volta dele daquela tropeada.

Das noites que rezava e pedia para que ele fosse buscá-la.

Do dia que o viu chegar, ali na casa do seu tio, pelas frestas da janela, assistiu o seu cansaço, tendo a certeza que ele veio para buscá-la.

Por um longo tempo ficaram ali, na beira da sanga, matando a saudade que consumia aqueles dois corações, apaixonados.

Nico contou-lhe, que durante todos esses anos, viveu pelas estradas a procurá-la. Já estivera pelas estâncias, nos povoados, pelos rincões, sempre na esperança de um dia encontrá-la.

- Foi o destino que te colocou novamente no meu caminho – disse ele, com convicção – e não vai ser a gora que eu vou deixá-la – completou.

Os dois ali abraçados um olhando para o outro, como se não estivessem acreditando que estavam ali, juntos, unidos e agora para sempre.



Clarice voltou para casa. Recolheu a roupa que estava estendida no varal. Sempre cantarolando, estava feliz. Há muito tempo que ela não cantarolava, que ela não tinha um sorriso tão lindo, um olhar tão brilhante, que não demonstrava a felicidade que estava sentindo naquele momento.

- O que estava acontecendo com Clarice? – sua tia desconfiou. Mas não deu importância. Se, estás feliz, que bom – pensou-a, conversando com seus botões.



Naquela noite Nico agradeceu a hospedagem daquela família. Comunicou-os, que partiria muito cedo para aproveitar o máximo do dia na estrada, pois a estância ficava há muitas léguas de distância dali.

Após todos dormirem ele trouxe o cavalo para próximo do galpão. Escorou-se um pouco num catre feito dos arreios e o poncho e deu uma ou duas cochiladas. A noite fria trazia uma lua clara. Os campos cobertos de geada pareciam ficar mais claros ainda no brilho da lua cristalina. O Cruzeiro do sul apontava o oposto para onde ele iria. A estrela boeira lhe anunciava a madrugada. O Minuano juntando notas da pauta dos aramados recitava versos pelos galhos do arvoredo. Ele já em pé com a fibra de um caudilho de guerra, encilhava seu o cavalo num silêncio de adeus na porteira, sempre de olhar voltado para a banda da casa, para janela do quarto dela.

Quando tudo já estava pronto para a partida, correu novamente seus olhos tristes, onde gotas de água e sal, teimavam em escorrer do fundo daquelas duas cacimbas vazias, como num adeus de despedida. Lágrimas não por ter que partir, mas por ter que partir solito, deixando para traz aquela que tanto buscara nos últimos anos, pelas estradas da vida.

Quando alçou a perna no pingo sobre a cabeça do serigote ele viu um vulto, entre as árvores do quintal, que saía um pouco acima do oitão da casa. Toda vestida de negro com um manto enrolado sobre a pele rosada do rosto, parecendo um vulto, uma dessas assombrações que a peonada conta nas rodas de mate, que saem da boca das picadas, para atormentar os andantes.

No principio ele assustou-se, mas logo viu que era ela e já trazia um saco cheio de roupas, estava pronta para cometer uma loucura. Loucura que ele não se animara a pedir para ela fazer, mas que trazia novamente um sorriso para seu rosto triste.

Quando clareou o dia, já estavam légua e tanto da casa do seu tio, no rumo da estância. Próximo ao meio já meio tomados pelo cansaço, eles encontraram uma comitiva que voltava de uma tropeada e estavam acampados preparando o almoço, na costa de um capão de mato, na volta grande de um rio.

Ambos foram bem recebidos pela peonada. Almoçaram e Clarice pegou carona com o cozinheiro da comitiva, num carretão de toldo que mais parecia uma casa.



Depois de alguns dias chegaram juntos na estância de dona Ruth, onde sua mãe vivia ansiosa por não saber notícias de seu filho.

Dona Eleonor ficou surpresa e ao mesmo tempo feliz, com a volta do filho. Abraçou-o longamente e com os olhos ainda cheios de lágrima deu um grande abraço em Clarice, admirada com a beleza da moça.

Dona Ruth estava muito doente, com esclerose e uma tosse cumprida, dizem que estava tísica, que nem levantava mais da cama, vivia só de teimosa, porque não tinha força para nada.

Naquela noite houve festa na estância. Nico sempre foi um grande homem, um exemplo para a peonada e querido por todos. Pelos galpões a indiada bebia, cantava, jogavam truco, tinha roda de viola e cantoria. Tudo em comemoração ao amigo que voltara.

A farra foi madrugada à dentro. Tudo era festa. Ninguém sabia quem era aquela moça que ali estava. Só sabiam que o Nico estava feliz e que todos estavam felizes com ele.



No outro dia, já chegavam os primeiros raios do amanhecer e ainda havia gente pelos galpões bebendo e comendo. Festa igual, ainda não havia acontecido, pelo menos ali na estância.

No Domingo. Haveria uma grande carreira lá na cancha dos Corrêa. Não era muito longe, uma légua e tanto ali da estância.

Quando havia essas carreiradas, juntava o povaréu de todo lado. Iam os daqui do rincão, vinha gente lá da Vista Alegre, do Farinheiro, da costa do Itú, do espinilho e até da Vila Forte.

Do povo vinha a milicada e algumas tipas que velho Corrêa mandava trazer, sem ninguém saber, para deixar a festa mais animada, mais recatada – dizia o velho fanfarrão.

Naquele Domingo, em especial a segurança era redobrada, pois haveria três pencas. Uma muito importante, era uma carreira de petiços, sendo que dois deles muito famosos. Falam por ai que um piticinho baio maceta, tem as juntas grossas de tantas carreiras que já venceu. Foi esse petiço que o José Loco trouxe lá da Linha Sete e deu de presente para os filhos da professora. O outro é um peticinho porqueira, um tal de Mitaí, do velho Noel, mas que numa só carreira, lá pras bandas do Mato Grosso, ganhou não sei quantas quadras de campo, de porteira fechada e que até em décimas andam o cantado pelo rincão.



De manhãzita a peonada ia se bandeando para as carreiras. O Nico não ficou para traz, apensar da festa do dia anterior, acordou cedo, encilhou o melhor cavalo da estância. Selou outro para a sua amada. E se botaram para as carreiras.

Clarice não estava à vontade. Sentia-se ainda cansada da aventura que fizera, mas não era hora de contrariar o seu amado.

Nico sempre atencioso tentava distrair a amada, mostrando as belezas que a natureza oferecia-lhes. Suas brincadeiras foram cada vez mais a encantando, pois ela pouco conhecia o homem pelo qual se apaixonara, mas a cada instante, a cada momento vinha provar que aquele amor era puro e verdadeiro. Maior que tudo e valia a pena se arriscar por ele.

No fundo da estância passava um rio de água muito clara. Grandes pedras, pequenas cascatas formavam-se entre elas. Remansos e logo abaixo do passo uma linda cachoeira, que borbulhava formando uma branca espuma, muito transparente. Foi ali que eles pararam para descansar um pouco. Clarice lavou o rosto na água fria, que corria intensamente, tirou os calçados que apertavam aqueles pés delicados e colocou-os na água limpa e pura do rio.

Por ali ficaram algum tempo. Ouvindo o chiado do rio, o barulho da correnteza, o cantar da passarada, a cantiga dos galhos bailando ao som do vento. Conversaram sobre suas vidas, sobre o passado e principalmente sobre o futuro.

Ela se lembrou de sua família, de seus Pais.

- Será que estariam sabendo da loucura que fizera? – Chorou. Sorriu. Cantou. Fez tudo que há tempos não fazia, sempre sentindo o carinho especial, daquele que também era especial. Protegida entre seus braços, acariciada e afagada pelas mãos rudes de um peão, sentia-se a pessoa mais feliz deste mundo.

O tempo passou rápido. Já estava na hora de seguir à diante. A proximidade com o meio dia, o sol quente, tudo vinha preocupando Nico.

Montaram novamente e apressaram o passo de seus cavalos, quando o sol ficou bem à cima de suas cabeças, chegaram à estância dos Corrêa, lugar da grande carreirada. Já era virado do meio dia.



Por lá a coisa estava linda demais. Ela nunca viu aquilo. Debaixo das árvores, na costa do mato, na sombra da casa, as pessoas sentadas: pelo chão, pelos tocos, nas pedras e ali já estava a peonada da estância. Uns bebendo, outros jogando truco, outros se refestelando para as chinocas que chegaram do povoado. Nico e Clarice ficaram ali juntos com eles, na sombra de uma grande figueira, onde comeram e beberam a vontade.

Dizem que, até o Velho Corrêa, andava por lá no meio das tipas, se achando de galo. Isso não se sabe se é verdade. Mas que ele estava faceiro, isso estava. Parecia um guri novo, quando enche as mãos de caramelo.

Ali da sombra copada de uma frondosa figueira, dava para enxergar os trilhos da cancha reta, que ficava um pouco mais em baixo, costeando um capão de mato que ia até o corredor. Foi ali, nesse capão de mato, que se encontrava a maioria do pessoal, comendo, bebendo, dançando. Tinha até uns trovadores lá do rincão, fazendo verso de improviso. Homenageando os estancieiros, às vezes as chinas, às vezes até a milicada, entravam nas homenagens.

Lá pelos trilhos, apesar da “ressolana” daquela tarde, uns “matunguinhos” porqueiras fazendo “juntamento” de borracho, nuns “picholeios” sem fundamento. Havia mais poeira do que qualquer outra coisa. Chegava dar nojo de ver aquela gritaria por pouca coisa.



À tarde mormacenta não espantou o povaréu. Muito pelo contrário. Cada vez chegava mais gente. Uns de carreta, outros de acavalo, alguns de a pé. Veio até a viúva do finadinho Tonho, toda de preto, numa aranha puxada por um tordilho negro, flor de cavalo, dizem por ai, que é o melhor da estância. Mas ela chegou solita, metendo banca, nem parecia que há poucos dias, andava por lá chorando a morte do finado.

Lá pelas duas da tarde, começaram as jogatinas. Na volta do mato, Dom Corrêa juntou três ou quadro peão, ferrado até os dentes, estendeu um poncho, com carnal vermelho virado para o céu e começou atirar “uns patacão” de ouro puro. coisas que juntara no longo dos seus setenta e tantos anos de vida.

Como principal testemunha disso tudo, veio do povoado, também para fazer a segurança o Delegado Moura e mais quatro homens da brigada fardada.

O Delegado Moura era homem respeitadíssimo pela sua valentia. Dizem até que num “João Fernandes” lá na costa do Itú, prendera uma porção de castelhano que andava acabando com os bailes da redondeza.

Homem de confiança de Velho Corrêa, tinha uma difícil missão naquela tarde. Além de fiel depositário dos valores jogados, seria também, o juiz de chegada e ainda teria que cuidar da segurança e o bom andamento daquelas carreiras.

Nunca houve, no rincão, tanta gente, como naquela tarde. Também nunca houve tanto jogo. Jogavam-se patacas de ouro, de prata, cavalo encilhado, tropilhas, tropas de gado e até uma estância de porteira fechada, foi jogado.

Dizem as más línguas, que o José Loco queria jogar a sogra. Mas essa ninguém quis. Então jogou um casal de porco, dezoito galinhas, uma vaquinha do leite das crianças e duas latas de banha.

Lá pelo meio da tarde, começaram a chegar os parelheiros.

Chegaram os Petiços que iam correr a primeira carreira.

Depois chegou o alazão do José Goela, que corria contra a Tordilha do Capincho e a Moura do Nardinho, na Segunda penca.

E mais tarde, quando a indiada já andava em volta com a matungada, chegou meio escondido, o tordilho do Corrêa, que ia correr com tostado do Juca Flor e a Zaina do Nego Bento, que antes de chegar, já diziam que estava dopada.

As duas primeiras carreiras deram a pedra.

A primeira ganhou o Petiço do Noel, com luz e doble;

Na segunda deu a Moura do Nardinho. Até aí, tudo certo. Mas a terceira foi o problema. Contaram-me, por que eu não vi e até hoje ninguém sabe o certo.

Dizem que o tostado do Nego Bento e o tordilho do Corrêa vinham batendo cara a cara, focinho a focinho, lado a lado, desde que saltaram na largada, mas lá já quase no fim do laço o piá que montava o tostado, mudou o chicote de mão e fez menção de bater no tordilho, que se assustou e o tostado ganhou de cabeça, para o delegado, julgador da penca, que não se fez de rogado, indo levar prontamente aquele gesto para o Seu Corrêa, que não aceitou o resultado da carreira.

Para encurtar o causo. O velho não quis pagar à carreira e começou o bochincho.

Peleava gente sem saber por quê. O Delegado e os miliquinhos que ali estavam de nada puderam fazer. Mandaram-se casa à dentro, dizem até que foram se esconder em baixo da cama do velho patacueiro.

Peleava gente com o que tinha na mão: adaga, facão, cabo de reio, bolhadeira. Era mulher batendo em homem. Homem batendo em mulher. Gente correndo para o mato. Invadindo as casas da estância. Cavalo correndo campo afora. Mulher perdida dos filhos. Dá até uma tristeza descrever esses relatos.

Entre mortos e feridos. Ferido de morte não se sabe quantos. Só se sabe quem morreu, mas ninguém sabe quem matou. O rebuliço era tão grande que teve gente que só foi se encontrar três dias depois, andavam perdido pelos matos, a procura de um rumo.

Os mais conversadores dizem que foi nessa peleia, que o Ibaldino aproveitou e roubou a filha do Quinoca, com quem já andava de cacho às escondidas,

O Nico, que levou Clarice para se divertir, no meio daquele povo, não se meteu na confusão. Mas mesmo assim andou tomando uns estouros. Não se sabe de quem, nem como, pois só sentiu o calor do aço, disparando rumo do galpão, esqueceu até da noiva.

A Clarice, coitadinha, atordoada no meio da confusão, disparou para o meio de umas taquareiras, no fundo das casas, enganchou o vestido e ficou só de corpete, toda arranhada, parecia que tinha brigado com gato. Louca de vergonha tentando esconder aquela belezura de corpo que o noivo tanto admirava.

Mas o pior aconteceu com a Tia Julica. Nessas horas que eu me pergunto, o que uma velha, de quase cem anos, vai fazer num lugar como aquele? - A coitada já tinha levado uma esfrega, na confusão que deu dos Moreiras e os Jacques, numas carreiradas outro dia, lá na Vista Alegre.

No meio daquela confusão a velhota conseguiu chegar à costa do mato. Um pouco caminhando, um pouco se arrastando, mas foi esperta a velha, se escondeu dentro de uma tulha, que o bolicheiro tinha levado com mantimentos, para vender nas carreiras e que estava quase vazia. Entrou dentro e ficou bem quietinha. O Mano João e o Beto Bocage, guri do Nei, que são ladeados de sem vergonha, tinham uma desavença com o Marmelada, dono do bolicho, aproveitaram a situação para se cobrarem. Pegaram aquela tulha e largaram lançante a baixo, num perau que tinha dentro do mato, indo findar numa sanga cheia unha de gato e japecanga, que nem mão pelada cruzava.

Para não me alongar. Três dias depois encontraram a velhota, dependurada nas unhas de gato, parecia um charque estendido num varal. Sem fala na verdade, mas ainda viva.

Mas o pior estava fora do mato, no redor da cancha, a corvaiada tomaram conta e ainda encontrava-se loncas de couro, pedaços de orelha, retalhos de roupa e tudo que um próximo possa imaginar espalhado campo afora.



Na estância, muito deu o que falar esta peleia. Mas a vida continuava. Nico e Clarice ganharam de dona Ruth um pedaço de campo no fundo da estância, lá na beira na Sanga da Tia Joana, onde era a tapera do Sabino e ergueram um ranchinho de barro e capim, bem na sombra de um arvoredo copado, aos pés de uma cacimba de água que era um espelho.

Fizeram uma rocinha para plantar mandioca e milho e mais junto da casa um jardim bem florido, uma horta toda fechada de taquara rachada.

Nico continuava trabalhando na estância. Toda manhã bem cedinho encilhava o cavalo e ia para lá, de onde saíam para a recolhida do gado. Às vezes tinha cavalo para doma. Algum feitio de corda. Algum concerto de cerca. Serviço nunca faltava.

Clarice sempre que dava, encilhava uma petiça troteadeira, que ganhou de Dona Ruth e ia também para a estância. Outras vezes, era a dona Eleonor que ia visitar a nora. E assim os dias iam passando na calmaria do tempo.



Um dia Nico foi chefiar uma comitiva que levaria uma tropa de bois para as charqueadas, indo ficar por lá três ou quatro semanas. Então Clarice veio ficar na estância, pois dona Ruth já se encontrava bastante doente. Dona Eleonor que escondeu a vida toda, um segredo que era só seu, achou ter chegado à hora de contar a quem mais interessava, à dona Ruth.

Era uma tarde, depois do chá das cinco, que costumeiramente dona Ruth tomava, embora com muita tosse e bastante debilitada, dona Eleonor sentou-se no costado da cama e começou contar sua história. Tudo o que havia lhe acontecido:

Porque fora embora, porque voltara e o mais importante: quem era o verdadeiro pai do Nico.

A velha escutou tudo em silêncio, sem dizer um ai. Dos seus olhos, já cansados desta vida, escorriam lágrimas, umedecidas de dor e de sentimentos.

Ouviu tudo e quando Eleonor terminou o seu triste relato, ela deu um longo abraço naquela que ela tinha como uma filha. Disse-a com dificuldades que a perdoasse, pois ela sempre desconfiara, mas nunca tivera coragem de saber a verdade do acontecido.

Antes de dona Eleonor sair, mandou chamar o Bonifácio, um serviçal que estava sempre prestes para seus chamados. Deu-lhe alguma ordem e adormeceu no seu repouso.



Uma semana depois Bonifácio apareceu na estância com o Doutor Flores, um velho amigo da família. Doutor Advogado que sempre cuidava dos interesses da dona Ruth, desde o tempo do traste de seu marido. Que até por sinal, na ocasião de sua falta, foi ele que fez aquela papelama toda.

Doutor Flores ficou lá o dia todo. Quase o tempo todo encerrado no quarto de dona Ruth.

Saía às vezes para tomar um café. Almoçar. Comer um guerrudo de milho, feito pela tia Negra ou quando a velha precisava ficar a sós, para fazer suas necessidades.

O que conversaram? - Não se sabe. Nem se imagina. Mas acho que era coisa importante.

No meio da semana posterior à velhota não agüentou e “encaixotou as melância”. Morreu.



Foi um dia muito triste. O Nico ainda andava tropeando, não se sabe nem por onde, não tinha como avisá-lo. O capataz sempre prestimoso a dona Ruth, foi quem tomou conta de tudo. Velaram ali na sala grande da estância, sobre uma mesa, que eu acho até que era do avô dela, de tão antiga. Veio muita gente. Pois a velha era, muito bem quista, aqui no rincão e conhecida até lá no povinho.

O Januário foi o encarregado de dar bóia para aquela gente toda, pois o velório atravessaria o dia e mais à noite.

Não é que tinha ficado um boi brasino que se desgarrou da tropa e se meteu mato à dentro e para não atrasar a comitiva Nico achou melhor deixá-lo, parece que estava adivinhando. Pois foi esse brasino que Tio Mingo, mais o Caçamba, o Adão Gripa, em poucas horas viu espedaçado, atravessado nos espetos de pitangueira, sobre uma valeta de brasas de angico e curunilha.

O Bonifácio junto com os filhos do Plínio também já voltava lá da chácara do fundo, com uma carretilha cheia de mandioca e batata doce. Estava feita a bóia para aquela gente.



No outro dia amanheceu garoando. A criançada dormindo, uns pelo galpão, outros sob um toldo de carreta, se viraram naquela noite fria.

As velhas choravam o defunto, umas lá pela cozinha, outras na sala e até pelos quartos tinha gente espalhada.

O Macherio não quis saber de choro, mas estavam por ali tomando canha e mentindo, contando vantagens como sempre, alegria de velório. Dizem que o Adão Gripa e o Plínio passaram a noite toda mentindo e discutindo qual o que tinha caçado mais, pescado o maior peixe, essas coisas de pescador e caçador.

No fim da tarde foi o enterro. A garoa diminuiu um pouco, fizeram uma missa de corpo presente com rezas e ladainhas e após a cerimônia, o caixão foi fechado e sobre uma carroça puxada por um cavalo preto, seguindo lentamente na direção da coxilha, onde fica o cemitério da família, o mesmo onde foi enterrado seu Alfredo e os antepassados dela. As pessoas caminhavam lentamente, nos olhares tristes a dor e o sofrimento de despedir-se daquela que por muitos anos esteve ali no rincão, sempre prestimosa, sempre atenta a todos que precisavam. O adeus à dona a Ruth foi triste. Do cemitério no alto da coxilha, dá para enxergar quase toda a estância e até uma parte do rincão. Foi ali que ela descansou em paz.



Depois do enterro, sumiram aquela gente toda.

Dona Eleonor, Clarice e o pessoal da fazenda, não se conformavam com a falta de dona Ruth. A pobre descansou, na verdade, mas se conformar, ninguém se conformava.

Esses dias foram os dias mais tristes na estância. As coisas continuavam como eram antes, mas faltava a imagem, embora triste, de dona Ruth. Clarice passava às noites ali na casa grande, durante o dia ia la sua pequena casinha para dar uma olhada nos bichos, na porca do chiqueiro, bóia pras galinhas e a lavoura de milho que Nico plantou junto a casa. À tardinha voltava para pousar com dona Eleonor que se sentia só, naquela enorme casa.

As noites eram de tristezas e solidão. A menina que pouco vivera sentia-se estranha naquela casa. O grande amor de sua vida ainda estava longe, talvez voltando, mas ainda longe. O Pai, a Mãe, irmãos deveriam estarem crescidos, nunca mais vira, nem se quer um chasque, um bilhete, uma noticia, nada. Os tios que deixou pra trás, para viver a sua grande aventura de amor, também, nada mais soube.



Naquele fim de tarde o tempo se ergueu de fato pras bandas dos castelhanos. E a chuva guasqueada castigou o rancho a noite inteira, pingando goteira nas telhas quebradas que o tempo gastou. O sono perdido tomou outro rumo pela madrugada, na erva lavada, amarga de um sonho, que se bandeou. Nas frestas respingam lágrimas de chuva em aguaceiro e lá no terreiro um galo encharcado traz vida pras casas, a manhã se espreguiça cinzenta e vazia bandeando o galpão, e a tal solidão fez cama com ela num peito em brasas.

O dia amanheceu com cara de sono do fio do horizonte e a chuva continuava bordando a coxilha no rastro do tempo. O capataz que não saíra pra lida, andava lá pelo galpão ajeitando tento, sovando corda, lustrando as pratas do lombilho, quando chegou o negro do Queno com os olhos que eram uma bolitas, de assustado, pois tentou cruzar a sanga, que estava fora da caixa e quase morreu afogado. Diz ele que se não fosse uns troncos que desciam água abaixo, onde ele pode se agarrar e voltar pra barranca. Era uma das maiores enchentes que já viram no rincão.

Um dia depois Nico chegou, encontrando o pessoal da estância, numa tristeza que dava dó. Ele também entristeceu, pois seu sentimento por dona Ruth era enorme e a falta dela deixou a todos sem muita saída, pois o que fazer com a estância, visto que nem ela, nem seu Romeu tinham filhos.

Naquele fim de tarde, antes do sol se deitar no horizonte, Nico colheu um belo ramo de flores, tão bem cuidadas por Clarice e foi levar no sepulcro de dona Ruth. Numa prece silenciosa agradeceu àquela que tanto fez por ele, desde o instante que chegou à estância, ainda piá.



Seguiram trabalhando como se nada tivesse acontecido. Na semana seguinte, Nico havia ido buscar uns potros para domar, numa estância a poucas léguas dali. Quando chegou, procurando por ele, o Doutor Delegado e mais dois brigadianos, com uma ordem de prendê-lo. Sem muitas explicações e com a empáfia que o poder lhe compete, o delegado só disse que viera prendê-lo por ter roubado uma menina menor de idade, de sua família.

Clarice apavorou-se, com a situação. Aos prantos clamava ao Doutor Delegado, que não fora roubada, foi ela quem quis vir com ele e não voltaria por nada. Que ela o amava e jamais o deixaria. Estava muito feliz ao lado dele e ninguém iria impedi-los de continuarem sendo felizes.

Mas nada disso adiantou. O Delegado, com toda a arrogância que a lei lhe assegura, ordenou-a que não saísse dali, pois ela voltaria com ele, para ser entregue a seus Pais.

Bonifácio escutando aquilo saltou de empêlo num tubaino que estava ali só de buçal e em disparada foi ao encontro do Nico que já vinha a menos de légua da estância, trazendo os potros que fora buscar.

Ouvindo o relato do Negro, Nico não se conteve. O sangue ferveu nas veias. Numa disparada de quem foge da polícia, ele foi ao encontro dos que vieram buscá-lo.

Ao chegar à frente da estância, já viu um truculento delegado com cara de mau, gritar para ele, dando voz de prisão. Nico tentou argumentar, mas de nada adiantou.

Os três se vieram para cima dele, de arma em punho, como quem pega guri para surrar. Nico deu uns três ou quatro passos para traz e gritou com eles. Mas não adiantou. Os homens vinham como touro contra a cerca, de olhos fechados.

Ele deus mais um grito. E nada!

Então arrancou de uma “pontuda”, cabo de ouro e prata, que nunca precisara para nada, a não ser cortar um fumo, cortar um tento, despontar uma lonca, mas que trazia sempre afiada como língua de sogra e quando um deles mais rápido meteu a espada contra ele, desviou-se, num salto certeiro, do ferro branco e no mesmo gesto, enterrou a bicuda até o “S”, ficando com o infeliz estaquiado à sua frente, com a boca golfando sangue e de olhos abertos, que nem um chibo quando morre.

Foi triste a cena. Mas de nada adiantou.

O Nico foi preso e condenado pelo crime que foi obrigado a cometer. Mas o Seu Juiz não quis saber disso.

- Matar um homem da lei é crime para apodrecer na cadeia. - ainda disse num ar debochado.



Solito entre as grades frias, sem a liberdade dos campos, num lugar distante de onde viveu toda uma vida, no silêncio que a alma traz, ele resmungava seus pensamentos:

- Porque a vida pregou-lhe tantas peças?

- Lutou tanto por um amor e quando encontrou, a lei vem dizer o que pode e o que não pode fazer!

- Por onde ficam os sentimentos de um homem que só tem amor no peito? - Sempre fora um homem de bem. Educado, trabalhador.

Ama a mulher que lhe ama. Nunca soube que precisaria ter idade para amar e isso foi o que disse o Doutor Juiz: - “A menina é muito nova para saber o que é o amor”.

- Mas tem idade para isso? Para saber o que é o amor?

Tantas eram as perguntas, sem respostas que lhe atormentava, naquelas grades frias, na solidão de um cárcere que jamais imaginava existir. O esquecimento das pessoas, a saudade de Clarice, o carinho da dona Eleonor, tudo isso lhe faltava, nesse momento, além da liberdade, das tropeada, das domas, das madrugadas em volta de um fogo de chão. Nada disso ele tinha. Somente frio, saudade e dor.



Ao longo dos anos, Nico só recebeu visitas do Doutor Flores, que continuava cuidando dos interesses da família. Ficou sabendo por ele, que era filho do seu Alfredo e que havia herdado a estância, num testamento que a dona Ruth fizera antes de morrer. Ficou sabendo, também, das notícias, do sofrimento de sua mãe e de sua amada Clarice, que apesar de ter voltado morar com os Pais, nunca o esqueceu, mas que não podia visitá-lo, pois, além dele estar preso na Correição, lá na distante Capital, era proibido à visita de mulheres.

Seu comportamento muito lhe ajudou ao longo desses anos. Uma década passou lentamente, ao tempo de uma eternidade. A mudança de década, no decorrer do tempo, com novas ideias, novos políticos, novos valores morais, tudo o ajudaram, nessa difícil transição.

Doutor Flores conseguiu a sua liberdade provisória.

Era uma Sexta-feira, de sol radiante, quando Doutor Flores adentrou os corredores frios daquele lugar solitário e num sorriso largo trazia em suas mãos, uma mala de roupas novas, um espelho, aparelho de barbear, um frasco de elostora e outro de perfume amor gaúcho.

- Como está meu rapaz? – Perguntou o prestimoso advogado.

- Como pode estar um homem, nesse estado, meu Doutor?

Respondeu-o.

- Espero que bem, pois há um mundo grande lá fora lhe esperando.



Nos olhos do Doutor Flores, havia um brilho, nunca visto ao longo desses anos de convivência, naquele lugar frio. Nico, que trazia um olhar tão triste e tão cheio de amargura, viu-o brilhar como uma lua cheia num fio de aguada, numa dessas noites lindas de verão. Sua alegria transformou-se em lágrimas. Sempre ouviu dizer que homem não chora, mas não poderia conter aquele sentimento que lhe saia do fundo do peito e lhe escorria pelo rosto, um tanto judiado pela barba grande, de alguns anos sem fazê-la. Não poderia guardar aquele momento que tanto esperava. Levantou-se do banco frio do qual estava acomodado e deu um longo abraço no seu amigo Doutor Flores, que em pé segurava a mala de roupas novas, à sua espera.

Tomou um longo banho. Fez a barba. Vestiu aquela roupa nova cheirosa e limpa e saiu caminhando lentamente ao longo dos corredores, cheios de grades e gente que ali estavam gritando para ele. Cruzou uma porta de ferro onde havia dois guardas. Chegou a um balcão quase na saída daquele prédio, onde um escrivão já lhe esperava, com um livro para assinar. Recebeu novos documentos. Estava livre. Livre para ver o belo dia que lhe esperava lá fora.

Quando saiu, a rua não era mais a mesma. Haviam feito enormes calçadas, tinham casas bem construídas nos terrenos antes vazios. Logo mais abaixo do portão, uma carruagem com dois cavalos brancos, lhe esperavam, era o carro do Doutor Flores. Dentro dele, num longo vestido azul celeste com branco bordado feito à mão e um manto mais azul à cabeça, cobrindo os longos cabelos negros, estava Clarice, com os olhos cheios d’água. Quando o viu, derramou-se num pranto soluçado. Correndo ao seu encontro abraçou-o com muito amor. Deu-lhe um beijo, mais outro e mais tantos outros como se não acreditasse que estava ele, novamente livre, para viverem o grande amor que ela tanto esperou ao longo desses anos.



Nico e Clarice voltaram para a estância. Tudo lá estava mudado. Dona Eleonor havia envelhecido muito com passar dos anos longe do filho. A dor da distância e o sofrimento de ver um filho preso fizeram com que ela adoecesse, mas nada que um abraço do filho amado não curasse. Essa era a tal de dor da saudade. Que só tem um remédio e ali estava ele de volta.

A estância estava atirada. Pois dona Eleonor não sabia lidar com tudo aquilo. O capataz, logo que o Nico foi preso, mandou-se embora, levando o dinheiro da última tropeada. A peonada com aquilo foi embora, também, trabalhar noutras estâncias. Só havia ficado por ali o Bonifácio, cuidando o pouco que sabia. Mas esse também, só ficou, porque se juntou com a Tininha, filha da tia Mosa e foi morar lá na casinha que era o Nico, na costa da restinga.

A chegada do Nico e a Clarice na estância, depois daqueles longos anos só vieram trazer alegrias. A gringalhada do rincão veio para receber o amigo, mas também para saber das notícias lá da Capital.

- Queriam saber da correição? - Como é que era? - Como ele viveu nesses anos, preso? Essas coisas que ninguém compreende.

Nico recebeu a todos, sempre com o mesmo tratamento dos anos anteriores. Clarice já uma mulher, havia aproveitado esses anos longe do seu amado, para estudar. Aprendeu a fazer quitutes, crochê, tricô, costurava com facilidade, já era quase modista.

Aos poucos as coisas foram voltando ao normal. A peonada começou a voltar para a estância. Nico repartiu a estância em invernadas, para isso precisou gente para tirar madeira: palanque, trama, mestre, contra-mestre. Foi nessa ocasiãoque apareceu na estância um violeiro antigo, já conhecido por aquelas bandas, chamado Pedreirinha da Viola. Era ele que alegrava a peonada nas noites frias lá do galpão e foi ele, tocador de viola, o responsável da festa do casamento do Nico e Clarice.

Pedrerinha de próprio punho escreveu diversos chasques em forma de convite e mandou o negro da Constança, Piá estafeta, pegar um cavalo se meter rincão à dentro, levando o convite daquele que seria o maior casamento do rincão. Assim o fez. Três dias depois o guri voltou com os chasques todos entregues.

O casamento aconteceu no dia marcado, uma semana depois de terminarem o feitio das cercas. Era primavera, a peonada havia construído uma ramada, entre o galpão e a casa grande da estância. Mais ao fundo fez um forno de barro, para assar pão. As mulheres enfeitaram os galhos secos da ramada com flores de maria-mole, de laranjeira, alecrim, margarida, rosas em botão e tudo o mais que encontravam pelos campos do rincão. O Adão Grande ficou responsável pelos leitões, eram três assados num forno de barro. A Margarida ficou com as galinhas assadas. Mas tinha mais: pão de forma, ambrosia, figo seco, rapadura de melado e até mel de abelha, para a canha pura, que eram nem sei quantos barris. O responsável pelo churrasco foi o João Brum, juntamente os guris do Plínio, fizeram um valo, botaram duas ou três carretas de lenhas, atravessaram um caibro de quase dez metros e com espetos de pitangueira, feito por eles mesmo, assaram duas novilhas no ponto, coisa pra não botar defeito.

O Vigário veio lá do povinho, juntamente com o seu Juiz. Trouxe a papelada toda pronta, que o Doutor Flores havia feito e veio junto é claro, pois ele não poderia faltar nesse momento tão especial.

De madrugadita a algazarra já era grande. A gringalhada do rincão vinha chegando, uns de apé, outros acavalo. Tinha gente de carreta, de charrete, de tudo que é jeito, o importante é que vinham.

Quando a manhã pintou os raios na janela, sombras tão belas beijaram hastes coloridas, veio um perfume com cheiro de primavera, e o sol esperou para trazer a luz da vida. As pitangueiras choraram lágrimas de orvalho e entre os galhos o cantar dos passarinhos, em alaridos e gorjeios de alegria, saudaram o dia que chegou nestes caminhos.



A Clarice juntamente com dona Eleonor fizeram o vestido para o casamento. Um vestido longo, todo branco, com um enorme véu e uma grinalda com folhas de laranjeira, dizem que para dar sorte, nas mangas uns filetes de botões dourados. O Nico trajava um terno de linho riscado, com uma gravata de tope sob a gola de uma camisa branca de algodão, mais perecia um doutor advogado. O cabelo bem penteado lustroso de elostora que chegava alumiar naquele sol quente.

Chegou, ao altar montado na frente da estância, numa charrete toda enfeitada de folhas e flores do campo, tendo o Bonifácio, também num elegante terno preto, um chapéu de copa alta, de cocheiro, dois belos cavalos brancos lustrosos de pelo e crina.

Quando chegou ao lugar, antes combinado, parou a charrete, desceu e ficou fazendo as honras para os noivos, que elegantemente desfilavam entre aplausos e gritos de sapucay, indo em direção do vigário que os esperavam para a benção matrimonial.

O casamento por si, já foi bonito. Mas o melhor veio depois. Ver aquela gente toda ali se divertindo. Uns dançando, outros tocando e cantando. Já outros comendo e bebendo a vontade. Homens, mulheres, crianças, todos feliz com a felicidade daquele casal que tanto lutou para ficar junto e que agora estavam realizando um dos seus sonhos.

“São essas coisas do destino, o que está escrito, ninguém apaga”.



A festa foi-se noite à dentro. Tinha quatro ou cinco gaiterinhos do rincão e ali mesmo no terreiro fizeram um bailongo. Mas a coisa pegou fogo mesmo, na hora que um gaiteiro afamado lá da costa do Itú, era o famoso compadre João Milico, com outra gaita nova, chegou metendo banca, causando o rebuliço das mulheres que ali estavam e ciúme do macheirio. Candeeiros acesos, espalhados pelas cabeças dos palanques, além de uma lua cheia iluminavam quase todo o rincão, deixando aquela festa ainda mais inesquecível.

Tinha muita comida, muita bebida, muita música de violão gaita e pandeiro. A borracheira atirada pelas macegas. Dormiam um pouco, acordavam caiam na dança, bebiam de novo e voltavam a dormir.

Foi à maior festa que rincão já teve, até hoje. Só não foi a melhor. A melhor aconteceu uma semana depois. Dizem até que foi no casamento do Nico que o Chico Larida e o Neri Fachada se combinaram de, no Sábado seguinte, bater uma surpresa na casa da Tia Daia.



A tia Daia era uma das pessoas mais antigas do rincão. Tinha quase uma dúzia de filhos e quase todos eles metidos a artista. Um era gaiteiro, outro tocava violão, outra cantava, andavam se refrestelando pelos domingos nos bolichos, com a gaitinha embaixo do braço.

Nico a princípio foi contra, mas depois acabou concordando. Aquele sábado quente de primavera estava pedindo por uma algazarra.

O macherio do rincão saiu na frente, logo após o anoitecer, enquanto a mulherada ia, mais atrás nas carretas, encontrando-se com o restante do pessoal num capão de mato que ficava há poucos metros da casa da dona.

Clarice nunca foi numa coisa assim. Estava um pouco apreensiva. Andar por aquela noite, apesar da lua cheia que clareava quase que um dia. O cheiro do campo. O orvalho caindo. O frescor da noite, tudo tinham toques de romance, mas ela estava preocupada, pois não sabia como seriam recebidos.

Quando chegaram, bem próximo da casa, o alarido dos quero-queros, o alarme da cachorrada, a correria dos homens, direto ao “poleiro” para pegar as galinhas, tiros de garrucha para o alto, tudo lhe assustou ainda mais. Nico vendo o estado de sua amada abraçou-a e tentou acalmá-la, enquanto uns invadiam a casa e já iam derrubando as paredes dos repartimentos internos, para deixarem maior, tornando um salão de baile, para a dança da gauchada.

A tia Daia, ainda com cara de sono, apareceu para dar as boas vindas, pois de nada adiantaria dizer coisa diferente. Pois ela, também, foi acostumada a bater surpresa na casa dos outros.

Na madrugada enquanto uns dançavam, as mulheres pela cozinha preparavam galinha com arroz. Bolo frito com açúcar e canela. Mate doce para as damas e mate amargo para a peonada. Os mais afoitos já traziam os borrachão de canha, ou algum vinho feito em casa, forte que nem vinagre. E assim amanheciam comendo e bebendo. Dançando e cantando até o sol ir alto.

Nico e Clarice nesse dia não se demoraram muito. Festejaram um pouco, mas depois foram embora, queriam aproveitar o Domingo, para começarem a viagem no encontro da família dela. Pois desde que foi ao encontro do Nico, quando saíu da correição, que Clarice não encontrava seus Pais, nem soube mais notícias de seu tio Adão que se encontrava doente.

Foram três semanas de viagem. Mas valeu a pena, porque a saudade que ela tinha dos seus Pais era muito grande. Nico tinha muito, o que conversar com eles. Gostaria de pedir desculpas pelos erros cometidos no passado. Gostaria, também, de ajudá-los levando-os para morarem com ele lá na estância, visto que agora eles eram uma só família, que tinham posses, campo, gado, cavalos, lavouras de milho, de mandioca, espaço à vontade para plantar e colher.

Nico e Clarice ficaram por ali alguns dias. Mas na estância muita coisa lhe esperava. Dona Eleonor sentia-se velha para cuidar de uma enorme casa. A peonada tomava conta do campo. Nico preocupava-se somente com as negociações, comprando e vendendo boi. Quase todos os dias tinham um ou outro ali na estância, negociando gado.

Numa manhã, Clarice acordou enjoada, pouco disposta, tudo o que comia não fazia bem. Dona Eleonor de pronto já viu que ela estava “embuchada”, pois além dos sintomas, já dava para sentir a transformação no corpo dela. Então à noite, quando Nico estava mateando no galpão, junto com a peonada, ela deu-o a notícia, que um “pithiãozito” pulsava dentro dela, na mais bela magia de ser Mãe.

A noticia de mais um herdeiro na estância, correu como pólvora espalhando-se pelo rincão. Logo vieram as visitas, roupas, enxovais, brinquedos feitos de madeira. Nico escolheu o melhor potro da tropilha para ser amanonciado a capricho, para que fique bom de arreio, para este que chegaria trazendo mais alegrias, selando o amor daquelas duas criaturas.

Passaram-se alguns meses e Clarice estampava um ventre de lua cheia: tão redondo, tão bonito, tão cheio de vida. Sabia ela que ali dentro tinha uma vida, resultado do amor que tanto lutaram, que tanto sofreram, mas na certeza de ter feito a coisa certa, correr atrás do seu amado.



Alguns meses após o nascimento do Vinícius, filho de Nico e Clarice, seus Pais chegaram à estância, com a mudança numa carroça puxada por dois cavalos magros, quase sem vida de tanto cansaço. Além deles seu irmão, um belo moço, que vieram prontos para ficar. Meses depois veio o seu tio, que para Clarisse era quase um Pai, com a família toda e cada um ganhou um pedaço de terras bem maior e a casa grande foi dividia para que a família do Nico e a a sua família pudessem morar todos juntos.

Daí por diante tudo seguiu como um sonho.

Pois “são essas coisas do destino, o que está escrito ninguém apaga.”



Fim